Vai comprar isso? – de Murillo Magaroti

A livraria estava lotada e entramos nela por acaso. Homens, mulheres, adolescentes, crianças… sentados por todos os cantos, em pé, esgueirados, bebendo café. Fedia a arrogância. Alguns só estavam confusos, como nós. Me senti enojado por fazer parte da multidão que lota lugares como aqueles, com livros num preço médio de 50 pratas, e esvazia sebos por toda a cidade – deve ser por que eles não têm café.

O café é como a cultura que eles tanto almejam tragar… ali, fácil, expresso… eles sentados ou se esgueirando, sozinhos ou na multidão. Eles tomam um gole bem grande duma vez, olham para cima e depois pros lados e depois pra baixo e se sentem muito bem.

“Eu só me lembro de todos aqueles livros e coisas para comprar… e de você!”, ela me disse. Como eu disse, estávamos ali por puro engano.

Algumas moças de pouca e muita idade manuseavam livros de todas as cores, prestavam atenção naqueles amontoados de letras, já seguravam as obras abertas quase na metade…. se fosse em uma banca de jornais, o jornaleiro já teria tomado os livros de suas mãos. “Vai comprar isso?”. Não as culpo, os livros que elas seguravam custavam 25, 40, 62 e 37 reais, respectivamente, e você levaria todos eles por 20 pratas em outro lugar da cidade. Mas lá eles não têm café – e gente. Não digo que não quero estar com eles, um dia, ou melhor, nas mãos deles, mas quero meus livros sendo vendidos nos sebos também, quero meus livros despejados nas ruas, sendo vendidos pelos moradores delas, os quero na banca de jornais, onde o jornaleiro fica puto quando alguém fica lendo algo em vez de pagar e levar pra ler em casa.

Ela não achou o livro que passou a procurar depois que nos vimos ali, perdidos, e, como essa procura era nosso único propósito, demos o fora dali.

Perguntei se ela estava com fome, e ela fez que sim com a cabeça. Comemos batata frita e sorvete e tomamos cerveja e fomos pra casa. Ela ainda queria o livro; eu ainda tinha que terminar os meus.

minutos de felicidade na terra do desemprego – de Murillo Magaroti

Ele, entre o polegar e o indicador, segura a cabeça, que pesa. Faz um movimento repetido com os dedos, alisando as sobrancelhas. A respiração é pesada também. Música triste entra pelos ouvidos, mas a máquina à sua frente sequer está emitindo som. O que é real é o cantar dos pássaros jovens do lado de fora do quarto; o chiar dos cata-ventos, presos à janela de madeira, que recebem os primeiros sopros da manhã de segunda-feira. Ele imagina as pessoas acordando, tomando banho; cafés da manhã em mesas arrumadas, toalhas estendidas, pão na chapa com margarina Delícia, café preto ou leite com Nescau. Pensa em quantas vezes já seguiu essa rotina, e, agora, se vê ali, parado, à frente de uma máquina, tentando forçar a mente, exprimir dela um texto, nem precisa ser dos bons. A máquina está lá, receptiva, esperando por qualquer coisa. Talvez ele se arrume na cadeira, tire os dedos das sobrancelhas, bata com força, vivacidade, nas teclas da máquina; teclas mágicas que mandam letras para uma tela, tela que brilha à sua frente. O dia ainda não amanheceu, mas ele tem uma luz à sua frente, afinal. Se sente feliz por um momento, livre da rotina do chuveiro, da mesa arrumada, da toalha esticada, do pão e do trabalho intragável. Não se sente fome, mas mesmo assim come-se pela manhã; não se sabe por que, mas mesmo assim sai-se pela manhã para trabalhar. Ônibus lotado; metrô. Ele novamente se sente confortável com aquela cadeira dura e aquela máquina que suplica por algumas palavras, poucas. A música triste vem à cabeça novamente. Ele caminha até a janela, abre-a e convida o vento gelado a entrar. Sopra o cata-vento, mas ele permanece imóvel. “Tire os dedos das sobrancelhas, amigo”, ele entende o cata-vento, que ainda não responde a nenhum estímulo. Volta para a cadeira, leva os dedos às sobrancelhas mais uma vez. Uma única vez. “Só mais essa, juro, hoje ainda escrevo algo”.

A quem sobrar – de Murillo Magaroti

No dia em que eu morrer.

No velório, quero salgadinhos, anota aí: coxinhas… empadas, esfirras e… só. Dos bitelo, por favor. Nada daquelas misérias de buffet infantil. Quero daqueles que só a vó Maria, a tia Tiquinha ou a Dona Lenão sabem fazer. Se elas estiverem mortas – o que é bem provável – contrate alguém que faça mais ou menos igual. Coxinha só de frango, esfirra só de carne e empada só de palmito – camarão também, se tiver bastante alérgico entre os convidados.

Quanto aos convidados: devem ser convidados MESMO. De modo que quem for bicão deverá ser expulso – educadamente. Envie convites para os mais chegados. Se não tiver ninguém para convidar, contrate gente – bonita. Fique tranquilo(a), eu arcarei com os cachês.

Não quero só salgados. Sirva também bolo e cerveja. Cerveja – qualquer marca serve, a que estiver mais barata. Despeje a cerveja em copos, assim ninguém vai ficar reparando, tipo “Não acredito! Que velório é esse que servem Nova Schin?”

Bolo – Deve ser impreterivelmente de chocolate com recheio de coco, vulgo prestígio. Cobertura de chocolate e ainda com chocolate granulado – um grânulo para cada dia de vida meu. Recheio bastante cremoso e enjoativo. Sirva em guardanapos. Assim, os convidados irão melecar toda a mão e não vão querer repetir. Guarde o que sobrar dentro do caixão para os decompositores terem um tira gosto. E não deixe aqueles que irão carregar o caixão comer do bolo, a fim de não melecarem meu caixão. Ah sim, salgadinhos ficam proibidos para eles também, caso estejam muito engordurados.

Os mais velhos deverão carregar meu caixão. Quero ver gente bufando. Se precisarem fazer pausas até a cova, não vejo problema. Não tenho pressa. Poderão ir ao banheiro, mijar, até duas vezes… ou 3, escolha gente velha MESMO.

O caixão deve ser escuro. Não coloque bandeira nenhuma nele. Ele deve ser quase todo liso, apenas com os dizeres em tinta vermelha “pro inferno”.

Peça para o mais velho dos velhos ofegantes e mijões medir a cova. Quero ter garantia dos Sete Palmos. Cova rasa de cu é rola!

Nada de discursos. Muito menos em latim. Recite um poema meu (anexo). Novamente, o mais ofegante deve fazer. Se algum alérgico estiver passando mal por conta das empadas de camarão, peça gentilmente para o coveiro abrir outra cova – ou quantas forem necessárias – longe da minha.

Nada de florzinha no meu jardim. Quero que plantem um jequitibá. Só me desenterrem após o jequitibá atingir 30 metros.

Nada de cruzinha de lápide. Quero uma daquelas em forma de sorvete picolé – de blue ice. Nada de “bom marido, bom filho, bom pai, bom homem ou bom cristão”. Escreva na lápide APENAS e a giz de cera LARANJA “O de baixo sou eu”.

Ps: Coloque uma foto em que eu esteja bonito, ou, pelo menos, sexy. Coloque a foto de outra pessoa, caso não encontre nenhuma boa minha (sugestão no anexo).

Números, números… – de Murillo Magaroti

O metrô estava vazio. Os faróis se abriam para mim. As bundas pela cidade nova estavam mais maduras que nunca – calças brancas… Na capa do jornal, outra boa notícia: CONSUMO DO ÁLCOOL AUMENTA 43%.

“Finalmente as coisas estão se encaixando”, pensei. É o tipo de notícia que faz seu dia mais feliz, sabe. Eis o poder do jornalismo. Abri o tablóide, vi a programação para o fim de semana e li a matéria sobre as pessoas beberem mais na íntegra.

Era, no final das contas, uma pesquisa. 42% dizia beber mais de 6 doses num período de 2h– não especificaram do que “CADÊ O O QUE, CACETE?”. Ademais, eles podem mentir sobre isso, não? “Você bebe, cara?” “Bebo… bebo pra carai”.

De outro lado, 63% dos entrevistados diziam nunca beber – provavelmente mentiam também. Li tudo de novo e desconfiei das porcentagens, que somadas… bom, foi tudo feito por jornalistas…

A namoradinha vai me ajudar a entrar na faculdade – de Murillo Magaroti

A mãe dele o chamou para uma conversa e, como dizem, colocou ‘as cartas na mesa’. Ele tinha 17. Estava no terceiro ano do colegial, ano de vestibular. Era abril.

Em vez de cursinho preparatório, ficou combinado que a mãe contrataria uma espécie de professora particular. Bom, na verdade, era mais como uma amiga de estudos – e ele não tinha muitas amigas. Uma puta. ‘Namoradinha’, como dizia o anúncio.

A namoradinha tinha peitos pequenos, duros mas macios; cabelos até o meio das costas, negros. O aluno, ou, como dizem, vestibulando, a chamava de Easy, por conta das ‘aulas’ de inglês. “It’s easy, baby”, ela dizia, a cada resposta certa dele.

O primeiro mês de estudos com ela se passou, e a mãe se empolgou com os avanços. O método de Easy era promissor; inovador. O filho nem saía de casa. Respondia as perguntas de Easy que, com os livros a mão, conferia as respostas. Se estivesse certa, ele ganhava um beijo, ou uma carícia – as mãos dela eram macias; quentes. Se errasse, recebia um tapa. No começo ele errava de propósito, e então o tapa passou a ser considerado só em respostas corretas. Ele escolhia, portanto, entre tapa, beijo e carícia. E ela fez até um dado, a pedido dele, com três faces para tapa, duas para beijo e uma para carícia. “Na sorte é melhor”, ele dizia.

Eles estudavam português, matemática, geografia, história, química, física, biologia, literatura, – a porra toda. Quando tinha cálculo envolvido, ele se concentrava pra valer. Podia perder até 20 minutos em cada cálculo, mas, se acertasse, ganhava o tempo que havia sobrado em sexo oral. Normalmente o tempo que restava era de no máximo 5 minutos, mas Easy fazia mágica com os lábios, língua e maxilar, e aqueles poucos minutos duravam horas, como uma dormida depois do almoço.  Para quase todas as outras disciplinas, eles jogavam o dado feito por Easy. Jantavam quase no final do dia e ele dormia no colo de Easy, ouvindo as estórias de José de Alencar, Machado de Assis e toda a merda que os vestibulandos são capazes de aguentar.

Às vésperas do vestibular, Easy entregou a ele alguns simulados. Ele foi muito bem em todos e, como ficou combinado previamente, caiu de boca e de pau na bucetinha macia de namoradinha da Easy, raspadinha, cheirosa, durante toda a sexta-feira. O vestibular foi no fim de semana.

Ele se sentiu muito bem nos dois dias de prova, à vontade. Respondeu todas as perguntas com toda a certeza do mundo. Aquela moça, namoradinha, parecia, além das próprias pernas, ter aberto a mente do rapaz.

Easy ainda foi à casa da família, duas ou três vezes, sem receber pagamento da mãe. Pagava uma pra ele e ia embora. Tinham criado certa afinidade.

Chegaram os resultados. Ele foi reprovado.

Easy largou a carreira de professora. Uma pena. Ela até havia considerado colocar essa habilidade no anúncio.

Leo, o leão – de Murillo Magaroti

Eu não vou adotar um cachorro. Não vou sequer comprar um.
Me falaram de uma moça, de uns 30 anos, que recolhe cachorros de rua. ‘Legal’, eu disse. E, na sequência, me pediram para adotar um de seus cães. “Ela recolhe e depois pede pra adotarem?” Não, eu não vou adotar cachorro nenhum. Não é minha culpa se não ensinaram planejamento familiar pra esses animais.
Essa que me falou sobre a tal moça tem uns 30 anos também e gosta de vomitar coisas sobre os animais e como eles são tão melhores que nós. “O ser humano é desprezível”. Sabe, é o tipo de discurso que as pessoas gostam de ouvir. São as mesmas que castram seus cães, na primeira oportunidade; que concordam que os pássaros devem ficar soltos, mas os cachorros, não, eles não podem ficar ao relento. Eles mal acostumaram esses pobres animais; não sobrevivem 5 minutos lá fora.
Meu vizinho não tem um cachorro, ele tem um gato. O gato dele sai, sempre que pode. Isso sim é atitude de um animal que se preze. A vida tá na rua, não é isso? O gato do meu vizinho vai, sempre que pode, no bar mais próximo comer sardinha e tomar uma dose de rum, enquanto os cachorros estão sendo recolhidos por moças de trinta e poucos anos. Os gatos riem dos cães. “Hahaha. Mais um rum pra mim, Joe!”
É. Mas ”o ser humano é desprezível”. “Mata e rouba”.
Me contaram, eu disse pra minha amiga de uns 30 anos, a história de um leão. “Deu em todos os telejornais do mundo animal. TV SAVANA”. O nome dele é Leo. Matou um amigo de seu bando, Simba, porque Simba olhou para o rabo de sua mulher, Tisha. No dia seguinte, matou Tisha também, porque Tisha quis comer o primeiro pedaço da presa que ela mesma caçou. Os telespectadores da TV SAVANA ficaram horrorizados com a notícia. “Chocou todo o povoado do Tikawaka”, conhecido por nós humanos como deserto do Kalahari. E o povo do Tikawaka disse: “aqui é uma selva mesmo! Nós temos que nos organizar e criar leis, como os HUMANOS”.

Catálogo – de Henri*

A aula era de Literatura, se não me engano. Primeiro semestre da graduação, duas semanas e eu só conversava com uma menina que sentava atrás de mim, Gabi, não gostava de nada do que eu gostava, mas era muito bonita. Sala grande, lotada, era um incomodo: cadeiras muito perto uma das outras. Ao meu lado não sentava ninguém até aquele dia.
Gabi falava, e muito, pouca coisa importante, mas vivia falando, eu a ouvia naquela manhã. Alguém me cutuca, era um cara, nunca tinha ido, tanto que se sentou ao meu lado, o único lugar vago.
– Chinaski?
– China o que?
– Esse texto ai. É do Chinaski. Tá escrito ali Henry, parece coisa do Chinaski. Porque se for do Chinaski, eu já li muito ele, é dele sim, já vi num livro. Henry Chinaski!
Ele disse aquele nome mais vezes do que uma pessoa normal diria, eu não fazia ideia de quem era. Ele me olhou e percebendo meu semblante confuso:
– Bukowski. Nunca ouviu?
– Ah, sim. O velho safado.
Eu até tinha alguns livros dele, mas eram mais como objetos de decoração, eu preferia assistir filmes e disse isso a ele. “… E quanto pior melhor! Já ouviu falar de Ed Wood?”.
Ele não gostava de assistir filmes. Só gostava de ler e de escrever, escrevia muito.
– Desculpe, eu não me apresentei. Meu nome é Henrique. Tenho um primo Ricardo e meu pai também se chama Henrique, tinha Rick demais numa família só. Henry é praticamente meu nome, não atendo por outro apelid…
– O meu é Miguel. Você escreve bem.
Ele pegou uma pasta cheia de folhas soltas. Muitos textos, principalmente poemas.
Miguel era um sujeito muito solitário, muito mesmo, eu entendo de solidão sei o que digo, mas segundo ele vivia cercado de mulheres. “Elas vêm e vão”, se eram reais ou não, isso pouco me importava. Seus textos eram sobre cada uma. Putas e santas. Loiras, morenas, ruivas, negras, japonesas, enfim, uma infinidade delas, “tenho o número de quase todas”, com certeza um verdadeiro catálogo. Ele chegava e me mostrava meia dúzia todos os dias, às vezes era sobre a mesma, cheguei a conhecer uma ou outra apenas por aquelas palavras, se via algo contraditório já dizia: “Nossa, logo a Sabrina, ela parecia ser tão normal”.
Ele escrevia bem, só não era melhor que eu. Era imensamente mais disciplinado, mas pecava pelo excesso, seus poemas eram exaustivos e repetitivos, sobre fodas e bebedeiras.

*Não, não é o Chinaski. E é Henri mesmo, e não Henry. Nem é um homem, é uma moça. Uma moça que lê Bukowski e vê Ed Wood sz. E ela ‘escrev(e) bem, só não (é) melhor que eu’.
Têm mais aqui, inclusive fotos da moça (+18): http://destinoparadiso.blogspot.com.br/