Por que os Jogos de Inverno foram tão interessantes quanto são os de Verão, talvez mais

Título longo para análise curta — ou quase. O objetivo aqui é registrar, como espectador, o quão interessante foi acompanhar as transmissões dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, realizados no condado de Pyeongchang, na Coreia do Sul, entre os dias 9 e 25 de fevereiro.

O principal nome que representa o sucesso desses jogos e que possivelmente será lembrado mesmo para quem, como eu, nunca viu neve na vida é o de Ester Ledecká, atleta checa que levou dois ouros — sendo um na sua especialidade, onde era a favorita, líder do ranking mundial (snowboard); e outra em modalidade na qual nunca tinha chegado perto de vencer uma etapa mundial e inclusive pegou o equipamento da miga pra poder participar (esqui alpino). Brasileiro gosta de torcer pros mais fracos, com menos chances, assim como gostamos também de torcer para aqueles com quem criamos empatia — e, apesar dos pesares, em alguns casos, criamos empatia fácil fácil.

Então, eu estava acompanhando ao vivaço, de madrugada, quando a austríaca Anna Veith era cumprimentada por outras atletas, antes do final da prova. “I am so happy for you”, disse uma delas. O comentarista do SporTV, que infelizmente não lembro o nome e nem consegui achar, explicou: Anna, até ali com o menor tempo entre as atletas que tinham descido a montanha nos esquis, dificilmente ia ser ultrapassada por qualquer uma das cerca de 10 atletas que iam descer ainda, porque essas últimas a descer tinham pior colocação no ranking mundial. Eram, aliás, poucas as chances mesmo de uma mudança na medalha de bronze. Daí já sabe… a gente fica meio bolado com isso, né, como assim ganhar antes de terminar? Tá certo que a austríaca não pediu pra ninguém cumprimentar ela por nada antes do fim. Aliás, se eu sou ela, depois de perder a medalha, como aconteceu, ia reclamar com as pessoas que acharam que ela já tinha ganhado e a cumprimentaram, tá na cara que foi culpa delas, zica do caraio…

Beleza… a Ledecká era a número 26. O comentarista fez uma brincadeira com o narrador. “Você acredita que ela teria uma chance de medalha?”, disse, para depois explicar que ela era favorita no snowboard e tal. E enquanto eles tavam lá, trocando ideia de boas, a mina foi e passou 1 CENTÉSIMO mais rápido que a até então primeira colocada. Puta que pariu. Isso, pra quem gosta de esporte a ponto de ver qualquer coisa, é que nem um gol do seu time de coração que vale a vitória no último lance do jogo. E a cara da Ledecká foi ótima. Daí eu já tava torcendo pra ela ganhar no snowboard também, até porque eu já conhecia ela, e só conhecia ela, infelizmente dormi antes da final da prova, porque o bagulho foi do outro lado do mundo e virava a madrugada sempre, mas ela ganhou e eu fiquei satisfeito que não tenha me decepcionado.

Esse episódio vale o ingresso, como a gente está acostumado a falar no futebol. Eu diria até que vale pela edição inteira de jogos olímpicos. Mas teve muito mais coisa que consegui acompanhar — e muita que não consegui também. Várias outras zebras, como o brasileiro gosta, no hóquei feminino e na patinação de velocidade feminina também, por exemplo. Vários esportes maneiros, bobsled, patinação artística, curling (famosa bocha, ou malha, no gelo), snowboard e esqui em categorias de manobras, tipo skate. E o que me chamou bastante a atenção também foi o quadro de medalhas. Tudo muito bem distribuído, apesar de, como acontece também nos Jogos de Verão, vários países ficarem sem um bronze que seja. Mesmo assim, diferentemente da olimpíada como estamos mais acostumados, com três ou quatro potências ganhando tudo — até 121 medalhas no total, 46 de ouro, como fez os EUA na Rio 2016 — o máximo que um país ganhou em Pyeongchang foi 14 medalhas de ouro (Noruega e Alemanha). Cabe dizer que os jogos de inverno distribuem menos de um terço do número de medalhas dos jogos de verão.

Além dos pontos já citados, o esporte como ferramenta diplomática que é, especialmente os Jogos Olímpicos, viu e mostrou para o mundo que as duas Coreias podem montar um time de hóquei feminino de boas (mesmo sendo um time ruim, não importa) — e ainda fazer um gol (de uma jogadora nascida nos EUA).

Por fim, queria compartilhar uma curiosidade que tive e fui procurar: sim, os jogos de inverno também têm sua versão paralímpica, que este ano acontecerá entre os dias 8 e 18 de março. E o Brasil, assim como aconteceu na edição que acabou dos jogos olímpicos de inverno, também contará com alguns poucos atletas na competição.

 

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Micro-crôni-conto de ficção científica para o 12 de junho*

Fiquei pensando outro dia em como seria voltar no tempo. Você me disse que estava com sono e que eu fiquei te cutucando e te atrapalhei, e foi por isso. Fiquei pensando em como seria ir direto na sua casa, a 30 minutos de trem (talvez mais antes, porque hoje em dia os trens são novos, né), e dizer que a gente já namora no futuro, ou melhor, no presente, que vamos casar, quando der, e se por exemplo a gente começar a juntar dinheiro agora (em 2008, digamos), vai ser mais fácil lá ou aqui, mesmo não tendo como saber quanto tempo mais teríamos pela frente (já que eu escolhi ir pro passado primeiro). Fiquei pensando como faria, aliás; se transferiria pro meu eu do passado também memórias com números da loteria ou de repente apostaria em esportes. Quem sabe na LDU como campeã da Libertadores… E como faria para não me sentir egoísta por mudar o nosso mundo e não o ao nosso redor, com todas as informações privilegiadas que teria. E quão perigoso seria isso, se a consciência pesasse demais. E se você não quisesse me namorar? Tem essa possibilidade. Eu ficaria esperando até 2011, trabalhando nos empregos que, já sabia, não ia gostar? E os empregos que gostei, em uma segunda chance, seria aprovado? Teria que cursar faculdade no mesmo ano, no mesmo lugar, para te encontrar? Se por acaso não deixasse o cabelo crescer, chamaria sua atenção mesmo assim? Poderia já escrever minhas reportagens mesmo antes de entrevistar as fontes, pois já sei o que vão falar? Essa é a merda, né, esse lance da vida não ter rascunho ou ensaio, mas tendo essa possibilidade, sem precedentes, saberia alguém o que fazer? Outro dia você me disse algo que eu já tinha ouvido, que sempre faz algum sentido: que não existe viagem no tempo, porque senão veríamos viajantes do futuro. Mas se eles apenas voltam para seus eus do passado, como sugeri aqui, sem se duplicar? Se não contam pra ninguém que vieram de outro tempo ou mesmo não têm consciência disso? E se contam, como alguém acreditaria? Ou mais: e se nesse microsegundo do universo em que vivemos, não há nada interessante a revisitar? Quero dizer, não para eles. Eu voltaria no tempo, para viver mais com você.

*publicado na data correta, na página pessoal do autor no Facebook

Ceticismo [prefiro chamar de literatura do que de iro***, mas, er, esse é o aviso, não explico mais que isso]

Eles pedem tão pouco. Vi na internet esses dias. Uma discussão sobre apropriação. Cultural. Por que a moça branca. Coitada. Não pode usar turbante. Afinal.

Outro dia. Também na internet. Sabe. A internet aproxima a gente. Estavam falando que eu devia chamar um homem. Nasceu com rola. Eu devia chamar esse homem de ela. No feminino. Sabe. Se por exemplo o nome do cabra fosse Pedro. E no dia seguinte passasse a ser Fátima. Deveria chamar o cabra de Fátima. Se eu conhecesse alguém assim. Não teria preconceito. Mas. Ia ser estranho. Né. Chamar de mulher alguém que joga bola. Jogou. Com você. Na rua. Descalço. De Fátima. Por que alguém ia querer se chamar Fátima. Daí a Fátima vai querer usar banheiro feminino. Eu sei bem que ele quer. O Pedro. Pessoal finge ser. Viado. Posso dizer isso ainda. Hein. Tudo que eu falo tá errado. Parece. A não ser no grupo. Lá é só zoeira.

Eu não entendo. Quem fala que eles querem tudo é que estão certos. Parece ser pouco. Mas. A gente dá uma mão. Querem o braço. A perna. A perna que essas feministas insistem em não depilar. Eu também me informei sobre isso. Li os comentários. E os comentários sempre concordam com o que eu penso. Se a maioria pensa de um jeito. Deve. Estar. Certo. Daí um dia nenhum jantar se põe na mesa. E eu. Como fico. E a gente tem que garantir a sobrevivência da. Raça. Elas querem direitos iguais. Um pessoal esperto ofereceu para carregar cimento. Eu nunca carreguei cimento. Mas tive que me alistar. Isso. Não querem. Óbvio.

Se precisar trabalhar fora pode. Se não precisar. Fica. Ir pra que… Eu nunca vou entender. E me esforço. Juro. Sempre tenho a confirmação que estou certo. Sempre. Até. Porque. Entre eles. Discordam. Se até entre eles. Algo não está. Certo. O conservadorismo é necessário. Falaram. Eu concordei. Mas tudo que eles falam parece sem sentido. Aí fico com as minhas. Convicções mesmo. As vezes até desisto de ouvir.

Não aceito as coisas. Assim. Fácil. Não. Eu sou cético. Um pessoal aí por exemplo fala que. Ditadura foi cruel. Eu vi que o Brasil cresceu. Eles não podem.  Esses que falam de crueldade. Estar mentindo. Hein. Todo mundo quer tirar vantagem. Todo mundo. Já mentiu. Para tirar. Vantagem.

Pessoal fala que apanha da polícia por ser afrodescendente. E bandido. Né. Se apanhou. Mereceu. Uma coisa que é díficil de entender também. É mulher safada. Que seja. Fora de casa. Casar pra que. Né. E a maioria não quer saber. De homem de. Bem.

Não dá pra entender. Pessoal já vota. Pessoal já pode trabalhar fora. Só não pode ser preso de menor. Fico puto. Só querem saber de direitos. E os deveres. Hein. Pode ser viado. A TV tá cheia. Pode ficar sem depilar. Mas não sou obrigado a achar bonito. Claro. Não sou obrigado a achar bonito nada. Cabelo ruim. O pessoal faz isso. Ter direitos. Mas e os deveres. Né. Querem mais. Sempre. Quando eu falo que todo mundo quer tirar vantagem. Processar. Ganhar cinco minutos de fama. Dinheiro. Mas não se pode falar mais nada. Querem mais o que. Vou falar tudo que eu quiser sim. Chama liberdade de expressão. Eles parecem pedir pouco. Mas querem tudo. E eu não vou dar. Até porque dar é coisa de viado. Falo mesmo. Outro dia me falaram que não é todo viado que dá o cú*. Aliás. Eu não entendo… [quinze mãozinha rezando)

Vodca ou água de coco

Se o lugar ‘é’ de rico, em bairro fino, nobre, e vende pizza, é provável que a pizza seja de muçarela. Mas na pizzaria da esquina da sua casa, lá no Itaim Paulista, a pizza vai ser sempre de mussarela.

Duas senhoras conversam sobre. A filha de uma delas trabalha num bairro ‘de’ rico, e trouxe a novidade ortográfica pra mãe, que a repassou à vizinha.

— Pessoal tudo cheio das frescura… e nem escrevê num sabe. Vê se pode! Eu, que num fiz nem o primário…

Do outro lado da cidade, um senhor distinto, seja lá o que isso significa, discursa para o porteiro.

— Muita gente não sabe disso…

— I é?

— É sim, com cê cedilha mesmo.

E foi por causa desse cara, que um dia alertou o dono da pizzaria do bairro nobre onde mora: o ‘correto’ é muçarela, o qual tão logo consertou (este com ‘s’ mesmo) o cardápio, notado por outros donos de nobres pizzarias, as quais também ganharam novos cardápios (brindam os donos de gráficas), que nos bairros finos a pizza é de muçarela.

Agora, o real motivo para ser muçarela lá e mussarela ali é, se ainda não ficou claro, acho que não, a satisfação dos egos. Vamos a outro exemplo.

No bairro não fino, a senhora cuja filha trabalha no bairro fino vai à venda da esquina, comprar mortadela (ou mussarela mesmo), e solicita perante o balcão envidraçado:

— Me vê trezentas gramas de mussarela, por favor. (o balconista compreende)

Ao que do outro lado da cidade…

— É. Outra coisa que muita gente não sabe… é que o correto é pedir, por exemplo, trezentos gramas de muçarela, ou o que seja. E não ‘trezentas’ gramas (contorna o ar com os dedos; o sorriso triunfante no rosto).

— I é? —finge interesse novamente o porteiro.

Passe Livre

Não, senhor, eu não sou estudante. Já fui. Escola pública, sim, senhor, faculdade particular. Sabe como é. Mas não sou mais. E aí, posso passar por baixo?

O senhor me conhece, sou trabalhador. Quer dizer, já trabalhei muito. Tô dando um tempo. Disponível no mercado de trabalho. Sabe como é.

E aí, posso passar?

Chama o prefeito, o governador, quem for. Quem tiver que chamar.

Já que o motô tá de cara feia, deixa eu passar logo e vamos acabar com isso. Que me diz?

Não, senhor, tô indo ver emprego nenhum. Já viu alguém procurar emprego de sábado?

Deixa eu passar?

E pobre não pode se divertir, não pode namorar? Só pode passar se for pra procurar emprego ou estudar? Todo mundo tem direito de ser feliz! Tá escrito em algum lugar. Hei de estar! Posso passar por baixo?

Olha aqui, eu tenho essa bala no bolso. Tá faltando duas, mas eu vendo mais barato. DESCULPE ATRAPALHAR A VIAGEM DE VOCÊS… Que que há? Não posso trabalhar? Calma, motô, eu desço logo. Vou chegar num entendimento aqui. Não é, meu senhor cobrador? Vamos, homem… deixa eu passar!

Tô indo ver minha nega, mora lá pro Itaim, longe demais, 3 e 50 demais. Imagine só, meu senhor, faz as contas aí.

Eu já fiz. Sabe quanto custa só pra gente se vê, sem casquinha, sem cinema, só sofá e TV? É 5 e 45 pra ir, mais 5 e 45 pra voltar. Vamos lá, homem. São 10 e 90 o dia. Imagina isso num mês!

O quê? Não, não, não e não, meu senhor. Eu não posso namorar alguém daqui.

Não e não, mulher não é tudo igual. Ainda mais ela. Cê tem que ver! Se conhecesse ela, nem tava fazendo esse jogo duro. Nem o motô. Juro que depois convido vocês pro casamento. E TODOS OS PASSAGEIROS PRESENTES! DESCULPE ATRAPALHAR DE NOVO.

Cêis vão acabar com a felicidade no mundo!

Ok, ok, se felicidade não é direito meu, e aquele negócio de ir e vir? Quero meus direitos!

Pode deixar, que lá no trem eu me viro. Hoje tá sem trem, é Paese, e nem precisa mostrar papel nenhum pra subir no ônibus, que eu sei. Também, né, o pessoal paga pra ir naquele trem bonito, com ar condicionado, e ganha em troca um papel e um ônibus lotado, sujo e quente? Não tem quem guente. A não ser eu, é claro, porque o amor é maior. Até parece uma palavra com a outra. Amor, maior, maior que o amor não tem. Só mesmo essa passagem. Tá caro demais, hein, tá louco!

O cobrador bateu o pé, o motô também – no freio. Antes de eu descer, o motô disse que se eu não tava satisfeito com o preço da passagem era pra eu protestar. Respondi que pra ir protestar, ele ia ter que me arranjar uma carona. Ele fechou a porta no meu calcanhar e deu carona pro meu chinelo.

Infância

Coloquei, lado a lado, uma foto dela e uma minha. Eu, criança; ela, mulher feita, muito bem feita. Imaginei esta última embalando nos braços – a vácuo – o eu primeiro. Este tatearia – com a boca – toda ela, porque “leite humano é essencial para humanos”, principalmente crianças, assim como o leite de cabra dá um bom queijo – me disseram.

É doido pensar que todos fomos crianças. E aquelas fotografias – minhas e delas e suas – nos mostram tão como-a-gente-era-de-verdade. Na dela, é uma moça confiante, que sabeoquêquer, mas eu a conheço, conheço suas fraquezas… gosto que as compartilhe comigo. Numa foto dela ainda criança, porque um dia já foi também, ela sorri enquanto pula na cama da mãe, como se o mundo fosse só isso, vejam só! Assim como eu devo ter também uma fotografia de velho, porque já sou e um dia serei mais ainda, em que eu tento passar confiança. Olhem, sou alguém a quem se pode confiar um trabalho – ou filha -, não sou desses que passa as tardes a pular na cama desesperadamente, rindo da cara da responsabilidade… Como se ela fosse sua mãe te chamando para tomar banho. “E lave bem as orelhas!”

Cê tem brochoves?

Há muito mais entre o céu e a terra do que o homem paulistano pode imaginar. Mas nada disso é chuva, então não nos serve.

Faz séculos que não chove. Na última vez, ela veio com tanta força, a chuva, que… tava na cara, demoraria a voltar. Cuspiram bolas de gelo do céu, direto em nossas cabeças. Me fez lembrar quando tinha uns 10 anos e já era chato: “nevou ontem, nevou sim, pergunta pro meu pai”, eles me falavam, enquanto eu insistia que em São Paulo não neva coisa ninhuma!

Na última quarta-feira, vi naquelas tevezinhas que instalam no ônibus que a Cantareira chegou a 20% da capacidade. Sabe… se for verdade, é como se você pedisse um copo d’água pra alguém e só te trouxessem um dedo ou dois – de água, claro. “Tava com sede tamém, bebi no caminho, foi mal”. Busca mais, então, carai!

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