O discurso e o microconto

Em linguística, a análise do discurso é feita com base no contexto histórico, político, social etc. em que o texto foi escrito. Assim, é possível se chegar ou aproximar da intenção com que o texto foi escrito/falado. Uma mesma frase que atravessa séculos, fronteiras e culturas diferentes pode facilmente ter diversos significados. O contexto é algo bastante presente nas nossas discussões diárias e na nossa tentativa de compreensão da língua, tão maravilhosa e complexa ao mesmo tempo. “A solução mais fácil era botar o Michel”, quando durante uma partida de futebol, podia se referir a uma mudança tática, por exemplo. Fim do parágrafo mais acadêmico.

Daí que outro dia vi a seguinte frase na timeline do Facebook: “Vou dormir, antes que eu sinta fome”. O contexto em que isso foi colocado eu não sei exatamente. Chuto que tenha sido algo sobre tentar emagrecer ou por preguiça de cozinhar. Tinha um ‘rs’ depois, algo assim, e na nossa sociedade atual sabemos que isso foi uma forma de facilitar a compreensão de ironias rs. O meu contexto, de outro lado, era (já faz umas duas semanas) de alguém que tinha estudado recentemente sobre microcontos. Logo, mesmo sem a aparente intenção, julguei que o autor tinha feito um excelente microconto (gênero no qual, como o nome diz, as palavras são poucas, e por isso mais margem para o não-dito e à interpretação). “Vou dormir, antes que eu sinta fome”.

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Passe Livre

Não, senhor, eu não sou estudante. Já fui. Escola pública, sim, senhor, faculdade particular. Sabe como é. Mas não sou mais. E aí, posso passar por baixo?

O senhor me conhece, sou trabalhador. Quer dizer, já trabalhei muito. Tô dando um tempo. Disponível no mercado de trabalho. Sabe como é.

E aí, posso passar?

Chama o prefeito, o governador, quem for. Quem tiver que chamar.

Já que o motô tá de cara feia, deixa eu passar logo e vamos acabar com isso. Que me diz?

Não, senhor, tô indo ver emprego nenhum. Já viu alguém procurar emprego de sábado?

Deixa eu passar?

E pobre não pode se divertir, não pode namorar? Só pode passar se for pra procurar emprego ou estudar? Todo mundo tem direito de ser feliz! Tá escrito em algum lugar. Hei de estar! Posso passar por baixo?

Olha aqui, eu tenho essa bala no bolso. Tá faltando duas, mas eu vendo mais barato. DESCULPE ATRAPALHAR A VIAGEM DE VOCÊS… Que que há? Não posso trabalhar? Calma, motô, eu desço logo. Vou chegar num entendimento aqui. Não é, meu senhor cobrador? Vamos, homem… deixa eu passar!

Tô indo ver minha nega, mora lá pro Itaim, longe demais, 3 e 50 demais. Imagine só, meu senhor, faz as contas aí.

Eu já fiz. Sabe quanto custa só pra gente se vê, sem casquinha, sem cinema, só sofá e TV? É 5 e 45 pra ir, mais 5 e 45 pra voltar. Vamos lá, homem. São 10 e 90 o dia. Imagina isso num mês!

O quê? Não, não, não e não, meu senhor. Eu não posso namorar alguém daqui.

Não e não, mulher não é tudo igual. Ainda mais ela. Cê tem que ver! Se conhecesse ela, nem tava fazendo esse jogo duro. Nem o motô. Juro que depois convido vocês pro casamento. E TODOS OS PASSAGEIROS PRESENTES! DESCULPE ATRAPALHAR DE NOVO.

Cêis vão acabar com a felicidade no mundo!

Ok, ok, se felicidade não é direito meu, e aquele negócio de ir e vir? Quero meus direitos!

Pode deixar, que lá no trem eu me viro. Hoje tá sem trem, é Paese, e nem precisa mostrar papel nenhum pra subir no ônibus, que eu sei. Também, né, o pessoal paga pra ir naquele trem bonito, com ar condicionado, e ganha em troca um papel e um ônibus lotado, sujo e quente? Não tem quem guente. A não ser eu, é claro, porque o amor é maior. Até parece uma palavra com a outra. Amor, maior, maior que o amor não tem. Só mesmo essa passagem. Tá caro demais, hein, tá louco!

O cobrador bateu o pé, o motô também – no freio. Antes de eu descer, o motô disse que se eu não tava satisfeito com o preço da passagem era pra eu protestar. Respondi que pra ir protestar, ele ia ter que me arranjar uma carona. Ele fechou a porta no meu calcanhar e deu carona pro meu chinelo.

Cê tem brochoves?

Há muito mais entre o céu e a terra do que o homem paulistano pode imaginar. Mas nada disso é chuva, então não nos serve.

Faz séculos que não chove. Na última vez, ela veio com tanta força, a chuva, que… tava na cara, demoraria a voltar. Cuspiram bolas de gelo do céu, direto em nossas cabeças. Me fez lembrar quando tinha uns 10 anos e já era chato: “nevou ontem, nevou sim, pergunta pro meu pai”, eles me falavam, enquanto eu insistia que em São Paulo não neva coisa ninhuma!

Na última quarta-feira, vi naquelas tevezinhas que instalam no ônibus que a Cantareira chegou a 20% da capacidade. Sabe… se for verdade, é como se você pedisse um copo d’água pra alguém e só te trouxessem um dedo ou dois – de água, claro. “Tava com sede tamém, bebi no caminho, foi mal”. Busca mais, então, carai!

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Quase nove

Faz uns 8 anos – é, nossa, oito anos. Três caras que haviam repetido de ano, todos por motivos diferentes, mas estavam ali, imaginando como seria viver dois anos seguidos como se fossem um só – um dos caras já sabia como era. Sentou à frente, tinha cabelos a cortar e quase nenhuma barba. Os outros dois também não tinham, quase ninguém tinha barba naquela época, nem os repetentes. O cara se sentou à frente, quase na primeira carteira, acho que foi na segunda. O segundo cara se sentou ao fundo, no meio, e, incentivado por outros caras com quem fez alguma amizade, começou a provocar o cara lá da frente, de infantis olhos verdes, óculos e sorriso babaca. “Harry pooootter, pooootter”, a semelhança era lembrada e ecoava na sala. “Hey, cara, chega aí”, e, no mesmo dia, já voltaram conversando – a passos rápidos, já que o segundo cara tinha 15 minutos para chegar em casa, almoçar, se trocar e ir pro emprego, no centro – sobre vídeo-games. O terceiro cara se juntou aos dois primeiros, uma, ou duas, semanas depois. Repetente também, como adiantei. É, isso junta as pessoas.

A mãe do primeiro expulsou os outros dois algumas vezes, mas eles continuavam indo lá, na casa dele – não tinham muitos lugares pra ir. Eles arrumavam uma garrafa de refri vazia, às vezes, enchiam ela até quase a metade de água, o resto de pinga e suco em pó; e saiam por aí, contando os segundos que cada um mantinha a mistura virada, escorrendo o líquido pela garganta. Jogavam uns jogos de tabuleiros que causariam vergonha a qualquer um com o mínimo de bom senso, faziam alguns poucos planos…

O segundo cara tinha medo de não ter amigos pra vida inteira, então decidiu que os outros dois seriam esses caras.

E eles estavam lá, juntos, quando o segundo bebeu pra caralho e o terceiro teve o pescoço violentamente chupado por uma gordinha bastante simpática. O segundo correu com a calça do terceiro, que a tinha tirado para entrar na piscina, pela rua – duas ou três da manhã -, girou acima da cabeça e a atacou por cima do muro, na mesma piscina.

Noutro dia, o segundo bebeu pra caralho – é, de novo – e tarou a gerente da lanchonete que o terceiro trabalhou, enquanto o primeiro vomitava na pia cheia de louça… Linguiça e vinho! Combinação que sempre resultou em comida espalhada pelo chão…

Eles compartilharam empregos ruins… como quando o primeiro e o segundo iam pro centro de cabeça raspada – pra sorte deles, não trombaram nenhum punk nessa época.

O terceiro cantava – e os outros dois olhavam, desapontados. E os outros dois jogavam futebol no vídeo-game, enquanto o terceiro olhava, desolado.

Eles falavam dos poucos amores que tiveram e comiam pastel na feira. E quando eles acharam sobras de pastel doce embaladas em cima dum saco de lixo na rua, levaram para a escola e ofereceram para os outros e comeram também – tinha açúcar e canela. Acharam aquilo entre o intervalo de uma corrida – e o terceiro sempre era o mais rápido – e uma mijada no carpete da loja de tapeçaria (?).

Que os filhos de cada um deles conheçam os outros dois…

Vai comprar isso? – de Murillo Magaroti

A livraria estava lotada e entramos nela por acaso. Homens, mulheres, adolescentes, crianças… sentados por todos os cantos, em pé, esgueirados, bebendo café. Fedia a arrogância. Alguns só estavam confusos, como nós. Me senti enojado por fazer parte da multidão que lota lugares como aqueles, com livros num preço médio de 50 pratas, e esvazia sebos por toda a cidade – deve ser por que eles não têm café.

O café é como a cultura que eles tanto almejam tragar… ali, fácil, expresso… eles sentados ou se esgueirando, sozinhos ou na multidão. Eles tomam um gole bem grande duma vez, olham para cima e depois pros lados e depois pra baixo e se sentem muito bem.

“Eu só me lembro de todos aqueles livros e coisas para comprar… e de você!”, ela me disse. Como eu disse, estávamos ali por puro engano.

Algumas moças de pouca e muita idade manuseavam livros de todas as cores, prestavam atenção naqueles amontoados de letras, já seguravam as obras abertas quase na metade…. se fosse em uma banca de jornais, o jornaleiro já teria tomado os livros de suas mãos. “Vai comprar isso?”. Não as culpo, os livros que elas seguravam custavam 25, 40, 62 e 37 reais, respectivamente, e você levaria todos eles por 20 pratas em outro lugar da cidade. Mas lá eles não têm café – e gente. Não digo que não quero estar com eles, um dia, ou melhor, nas mãos deles, mas quero meus livros sendo vendidos nos sebos também, quero meus livros despejados nas ruas, sendo vendidos pelos moradores delas, os quero na banca de jornais, onde o jornaleiro fica puto quando alguém fica lendo algo em vez de pagar e levar pra ler em casa.

Ela não achou o livro que passou a procurar depois que nos vimos ali, perdidos, e, como essa procura era nosso único propósito, demos o fora dali.

Perguntei se ela estava com fome, e ela fez que sim com a cabeça. Comemos batata frita e sorvete e tomamos cerveja e fomos pra casa. Ela ainda queria o livro; eu ainda tinha que terminar os meus.

minutos de felicidade na terra do desemprego – de Murillo Magaroti

Ele, entre o polegar e o indicador, segura a cabeça, que pesa. Faz um movimento repetido com os dedos, alisando as sobrancelhas. A respiração é pesada também. Música triste entra pelos ouvidos, mas a máquina à sua frente sequer está emitindo som. O que é real é o cantar dos pássaros jovens do lado de fora do quarto; o chiar dos cata-ventos, presos à janela de madeira, que recebem os primeiros sopros da manhã de segunda-feira. Ele imagina as pessoas acordando, tomando banho; cafés da manhã em mesas arrumadas, toalhas estendidas, pão na chapa com margarina Delícia, café preto ou leite com Nescau. Pensa em quantas vezes já seguiu essa rotina, e, agora, se vê ali, parado, à frente de uma máquina, tentando forçar a mente, exprimir dela um texto, nem precisa ser dos bons. A máquina está lá, receptiva, esperando por qualquer coisa. Talvez ele se arrume na cadeira, tire os dedos das sobrancelhas, bata com força, vivacidade, nas teclas da máquina; teclas mágicas que mandam letras para uma tela, tela que brilha à sua frente. O dia ainda não amanheceu, mas ele tem uma luz à sua frente, afinal. Se sente feliz por um momento, livre da rotina do chuveiro, da mesa arrumada, da toalha esticada, do pão e do trabalho intragável. Não se sente fome, mas mesmo assim come-se pela manhã; não se sabe por que, mas mesmo assim sai-se pela manhã para trabalhar. Ônibus lotado; metrô. Ele novamente se sente confortável com aquela cadeira dura e aquela máquina que suplica por algumas palavras, poucas. A música triste vem à cabeça novamente. Ele caminha até a janela, abre-a e convida o vento gelado a entrar. Sopra o cata-vento, mas ele permanece imóvel. “Tire os dedos das sobrancelhas, amigo”, ele entende o cata-vento, que ainda não responde a nenhum estímulo. Volta para a cadeira, leva os dedos às sobrancelhas mais uma vez. Uma única vez. “Só mais essa, juro, hoje ainda escrevo algo”.

A quem sobrar – de Murillo Magaroti

No dia em que eu morrer.

No velório, quero salgadinhos, anota aí: coxinhas… empadas, esfirras e… só. Dos bitelo, por favor. Nada daquelas misérias de buffet infantil. Quero daqueles que só a vó Maria, a tia Tiquinha ou a Dona Lenão sabem fazer. Se elas estiverem mortas – o que é bem provável – contrate alguém que faça mais ou menos igual. Coxinha só de frango, esfirra só de carne e empada só de palmito – camarão também, se tiver bastante alérgico entre os convidados.

Quanto aos convidados: devem ser convidados MESMO. De modo que quem for bicão deverá ser expulso – educadamente. Envie convites para os mais chegados. Se não tiver ninguém para convidar, contrate gente – bonita. Fique tranquilo(a), eu arcarei com os cachês.

Não quero só salgados. Sirva também bolo e cerveja. Cerveja – qualquer marca serve, a que estiver mais barata. Despeje a cerveja em copos, assim ninguém vai ficar reparando, tipo “Não acredito! Que velório é esse que servem Nova Schin?”

Bolo – Deve ser impreterivelmente de chocolate com recheio de coco, vulgo prestígio. Cobertura de chocolate e ainda com chocolate granulado – um grânulo para cada dia de vida meu. Recheio bastante cremoso e enjoativo. Sirva em guardanapos. Assim, os convidados irão melecar toda a mão e não vão querer repetir. Guarde o que sobrar dentro do caixão para os decompositores terem um tira gosto. E não deixe aqueles que irão carregar o caixão comer do bolo, a fim de não melecarem meu caixão. Ah sim, salgadinhos ficam proibidos para eles também, caso estejam muito engordurados.

Os mais velhos deverão carregar meu caixão. Quero ver gente bufando. Se precisarem fazer pausas até a cova, não vejo problema. Não tenho pressa. Poderão ir ao banheiro, mijar, até duas vezes… ou 3, escolha gente velha MESMO.

O caixão deve ser escuro. Não coloque bandeira nenhuma nele. Ele deve ser quase todo liso, apenas com os dizeres em tinta vermelha “pro inferno”.

Peça para o mais velho dos velhos ofegantes e mijões medir a cova. Quero ter garantia dos Sete Palmos. Cova rasa de cu é rola!

Nada de discursos. Muito menos em latim. Recite um poema meu (anexo). Novamente, o mais ofegante deve fazer. Se algum alérgico estiver passando mal por conta das empadas de camarão, peça gentilmente para o coveiro abrir outra cova – ou quantas forem necessárias – longe da minha.

Nada de florzinha no meu jardim. Quero que plantem um jequitibá. Só me desenterrem após o jequitibá atingir 30 metros.

Nada de cruzinha de lápide. Quero uma daquelas em forma de sorvete picolé – de blue ice. Nada de “bom marido, bom filho, bom pai, bom homem ou bom cristão”. Escreva na lápide APENAS e a giz de cera LARANJA “O de baixo sou eu”.

Ps: Coloque uma foto em que eu esteja bonito, ou, pelo menos, sexy. Coloque a foto de outra pessoa, caso não encontre nenhuma boa minha (sugestão no anexo).