O discurso e o microconto

Em linguística, a análise do discurso é feita com base no contexto histórico, político, social etc. em que o texto foi escrito. Assim, é possível se chegar ou aproximar da intenção com que o texto foi escrito/falado. Uma mesma frase que atravessa séculos, fronteiras e culturas diferentes pode facilmente ter diversos significados. O contexto é algo bastante presente nas nossas discussões diárias e na nossa tentativa de compreensão da língua, tão maravilhosa e complexa ao mesmo tempo. “A solução mais fácil era botar o Michel”, quando durante uma partida de futebol, podia se referir a uma mudança tática, por exemplo. Fim do parágrafo mais acadêmico.

Daí que outro dia vi a seguinte frase na timeline do Facebook: “Vou dormir, antes que eu sinta fome”. O contexto em que isso foi colocado eu não sei exatamente. Chuto que tenha sido algo sobre tentar emagrecer ou por preguiça de cozinhar. Tinha um ‘rs’ depois, algo assim, e na nossa sociedade atual sabemos que isso foi uma forma de facilitar a compreensão de ironias rs. O meu contexto, de outro lado, era (já faz umas duas semanas) de alguém que tinha estudado recentemente sobre microcontos. Logo, mesmo sem a aparente intenção, julguei que o autor tinha feito um excelente microconto (gênero no qual, como o nome diz, as palavras são poucas, e por isso mais margem para o não-dito e à interpretação). “Vou dormir, antes que eu sinta fome”.

Micro-crôni-conto de ficção científica para o 12 de junho*

Fiquei pensando outro dia em como seria voltar no tempo. Você me disse que estava com sono e que eu fiquei te cutucando e te atrapalhei, e foi por isso. Fiquei pensando em como seria ir direto na sua casa, a 30 minutos de trem (talvez mais antes, porque hoje em dia os trens são novos, né), e dizer que a gente já namora no futuro, ou melhor, no presente, que vamos casar, quando der, e se por exemplo a gente começar a juntar dinheiro agora (em 2008, digamos), vai ser mais fácil lá ou aqui, mesmo não tendo como saber quanto tempo mais teríamos pela frente (já que eu escolhi ir pro passado primeiro). Fiquei pensando como faria, aliás; se transferiria pro meu eu do passado também memórias com números da loteria ou de repente apostaria em esportes. Quem sabe na LDU como campeã da Libertadores… E como faria para não me sentir egoísta por mudar o nosso mundo e não o ao nosso redor, com todas as informações privilegiadas que teria. E quão perigoso seria isso, se a consciência pesasse demais. E se você não quisesse me namorar? Tem essa possibilidade. Eu ficaria esperando até 2011, trabalhando nos empregos que, já sabia, não ia gostar? E os empregos que gostei, em uma segunda chance, seria aprovado? Teria que cursar faculdade no mesmo ano, no mesmo lugar, para te encontrar? Se por acaso não deixasse o cabelo crescer, chamaria sua atenção mesmo assim? Poderia já escrever minhas reportagens mesmo antes de entrevistar as fontes, pois já sei o que vão falar? Essa é a merda, né, esse lance da vida não ter rascunho ou ensaio, mas tendo essa possibilidade, sem precedentes, saberia alguém o que fazer? Outro dia você me disse algo que eu já tinha ouvido, que sempre faz algum sentido: que não existe viagem no tempo, porque senão veríamos viajantes do futuro. Mas se eles apenas voltam para seus eus do passado, como sugeri aqui, sem se duplicar? Se não contam pra ninguém que vieram de outro tempo ou mesmo não têm consciência disso? E se contam, como alguém acreditaria? Ou mais: e se nesse microsegundo do universo em que vivemos, não há nada interessante a revisitar? Quero dizer, não para eles. Eu voltaria no tempo, para viver mais com você.

*publicado na data correta, na página pessoal do autor no Facebook

Ceticismo [prefiro chamar de literatura do que de iro***, mas, er, esse é o aviso, não explico mais que isso]

Eles pedem tão pouco. Vi na internet esses dias. Uma discussão sobre apropriação. Cultural. Por que a moça branca. Coitada. Não pode usar turbante. Afinal.

Outro dia. Também na internet. Sabe. A internet aproxima a gente. Estavam falando que eu devia chamar um homem. Nasceu com rola. Eu devia chamar esse homem de ela. No feminino. Sabe. Se por exemplo o nome do cabra fosse Pedro. E no dia seguinte passasse a ser Fátima. Deveria chamar o cabra de Fátima. Se eu conhecesse alguém assim. Não teria preconceito. Mas. Ia ser estranho. Né. Chamar de mulher alguém que joga bola. Jogou. Com você. Na rua. Descalço. De Fátima. Por que alguém ia querer se chamar Fátima. Daí a Fátima vai querer usar banheiro feminino. Eu sei bem que ele quer. O Pedro. Pessoal finge ser. Viado. Posso dizer isso ainda. Hein. Tudo que eu falo tá errado. Parece. A não ser no grupo. Lá é só zoeira.

Eu não entendo. Quem fala que eles querem tudo é que estão certos. Parece ser pouco. Mas. A gente dá uma mão. Querem o braço. A perna. A perna que essas feministas insistem em não depilar. Eu também me informei sobre isso. Li os comentários. E os comentários sempre concordam com o que eu penso. Se a maioria pensa de um jeito. Deve. Estar. Certo. Daí um dia nenhum jantar se põe na mesa. E eu. Como fico. E a gente tem que garantir a sobrevivência da. Raça. Elas querem direitos iguais. Um pessoal esperto ofereceu para carregar cimento. Eu nunca carreguei cimento. Mas tive que me alistar. Isso. Não querem. Óbvio.

Se precisar trabalhar fora pode. Se não precisar. Fica. Ir pra que… Eu nunca vou entender. E me esforço. Juro. Sempre tenho a confirmação que estou certo. Sempre. Até. Porque. Entre eles. Discordam. Se até entre eles. Algo não está. Certo. O conservadorismo é necessário. Falaram. Eu concordei. Mas tudo que eles falam parece sem sentido. Aí fico com as minhas. Convicções mesmo. As vezes até desisto de ouvir.

Não aceito as coisas. Assim. Fácil. Não. Eu sou cético. Um pessoal aí por exemplo fala que. Ditadura foi cruel. Eu vi que o Brasil cresceu. Eles não podem.  Esses que falam de crueldade. Estar mentindo. Hein. Todo mundo quer tirar vantagem. Todo mundo. Já mentiu. Para tirar. Vantagem.

Pessoal fala que apanha da polícia por ser afrodescendente. E bandido. Né. Se apanhou. Mereceu. Uma coisa que é díficil de entender também. É mulher safada. Que seja. Fora de casa. Casar pra que. Né. E a maioria não quer saber. De homem de. Bem.

Não dá pra entender. Pessoal já vota. Pessoal já pode trabalhar fora. Só não pode ser preso de menor. Fico puto. Só querem saber de direitos. E os deveres. Hein. Pode ser viado. A TV tá cheia. Pode ficar sem depilar. Mas não sou obrigado a achar bonito. Claro. Não sou obrigado a achar bonito nada. Cabelo ruim. O pessoal faz isso. Ter direitos. Mas e os deveres. Né. Querem mais. Sempre. Quando eu falo que todo mundo quer tirar vantagem. Processar. Ganhar cinco minutos de fama. Dinheiro. Mas não se pode falar mais nada. Querem mais o que. Vou falar tudo que eu quiser sim. Chama liberdade de expressão. Eles parecem pedir pouco. Mas querem tudo. E eu não vou dar. Até porque dar é coisa de viado. Falo mesmo. Outro dia me falaram que não é todo viado que dá o cú*. Aliás. Eu não entendo… [quinze mãozinha rezando)

Vodca ou água de coco

Se o lugar ‘é’ de rico, em bairro fino, nobre, e vende pizza, é provável que a pizza seja de muçarela. Mas na pizzaria da esquina da sua casa, lá no Itaim Paulista, a pizza vai ser sempre de mussarela.

Duas senhoras conversam sobre. A filha de uma delas trabalha num bairro ‘de’ rico, e trouxe a novidade ortográfica pra mãe, que a repassou à vizinha.

— Pessoal tudo cheio das frescura… e nem escrevê num sabe. Vê se pode! Eu, que num fiz nem o primário…

Do outro lado da cidade, um senhor distinto, seja lá o que isso significa, discursa para o porteiro.

— Muita gente não sabe disso…

— I é?

— É sim, com cê cedilha mesmo.

E foi por causa desse cara, que um dia alertou o dono da pizzaria do bairro nobre onde mora: o ‘correto’ é muçarela, o qual tão logo consertou (este com ‘s’ mesmo) o cardápio, notado por outros donos de nobres pizzarias, as quais também ganharam novos cardápios (brindam os donos de gráficas), que nos bairros finos a pizza é de muçarela.

Agora, o real motivo para ser muçarela lá e mussarela ali é, se ainda não ficou claro, acho que não, a satisfação dos egos. Vamos a outro exemplo.

No bairro não fino, a senhora cuja filha trabalha no bairro fino vai à venda da esquina, comprar mortadela (ou mussarela mesmo), e solicita perante o balcão envidraçado:

— Me vê trezentas gramas de mussarela, por favor. (o balconista compreende)

Ao que do outro lado da cidade…

— É. Outra coisa que muita gente não sabe… é que o correto é pedir, por exemplo, trezentos gramas de muçarela, ou o que seja. E não ‘trezentas’ gramas (contorna o ar com os dedos; o sorriso triunfante no rosto).

— I é? —finge interesse novamente o porteiro.

Passe Livre

Não, senhor, eu não sou estudante. Já fui. Escola pública, sim, senhor, faculdade particular. Sabe como é. Mas não sou mais. E aí, posso passar por baixo?

O senhor me conhece, sou trabalhador. Quer dizer, já trabalhei muito. Tô dando um tempo. Disponível no mercado de trabalho. Sabe como é.

E aí, posso passar?

Chama o prefeito, o governador, quem for. Quem tiver que chamar.

Já que o motô tá de cara feia, deixa eu passar logo e vamos acabar com isso. Que me diz?

Não, senhor, tô indo ver emprego nenhum. Já viu alguém procurar emprego de sábado?

Deixa eu passar?

E pobre não pode se divertir, não pode namorar? Só pode passar se for pra procurar emprego ou estudar? Todo mundo tem direito de ser feliz! Tá escrito em algum lugar. Hei de estar! Posso passar por baixo?

Olha aqui, eu tenho essa bala no bolso. Tá faltando duas, mas eu vendo mais barato. DESCULPE ATRAPALHAR A VIAGEM DE VOCÊS… Que que há? Não posso trabalhar? Calma, motô, eu desço logo. Vou chegar num entendimento aqui. Não é, meu senhor cobrador? Vamos, homem… deixa eu passar!

Tô indo ver minha nega, mora lá pro Itaim, longe demais, 3 e 50 demais. Imagine só, meu senhor, faz as contas aí.

Eu já fiz. Sabe quanto custa só pra gente se vê, sem casquinha, sem cinema, só sofá e TV? É 5 e 45 pra ir, mais 5 e 45 pra voltar. Vamos lá, homem. São 10 e 90 o dia. Imagina isso num mês!

O quê? Não, não, não e não, meu senhor. Eu não posso namorar alguém daqui.

Não e não, mulher não é tudo igual. Ainda mais ela. Cê tem que ver! Se conhecesse ela, nem tava fazendo esse jogo duro. Nem o motô. Juro que depois convido vocês pro casamento. E TODOS OS PASSAGEIROS PRESENTES! DESCULPE ATRAPALHAR DE NOVO.

Cêis vão acabar com a felicidade no mundo!

Ok, ok, se felicidade não é direito meu, e aquele negócio de ir e vir? Quero meus direitos!

Pode deixar, que lá no trem eu me viro. Hoje tá sem trem, é Paese, e nem precisa mostrar papel nenhum pra subir no ônibus, que eu sei. Também, né, o pessoal paga pra ir naquele trem bonito, com ar condicionado, e ganha em troca um papel e um ônibus lotado, sujo e quente? Não tem quem guente. A não ser eu, é claro, porque o amor é maior. Até parece uma palavra com a outra. Amor, maior, maior que o amor não tem. Só mesmo essa passagem. Tá caro demais, hein, tá louco!

O cobrador bateu o pé, o motô também – no freio. Antes de eu descer, o motô disse que se eu não tava satisfeito com o preço da passagem era pra eu protestar. Respondi que pra ir protestar, ele ia ter que me arranjar uma carona. Ele fechou a porta no meu calcanhar e deu carona pro meu chinelo.

Infância

Coloquei, lado a lado, uma foto dela e uma minha. Eu, criança; ela, mulher feita, muito bem feita. Imaginei esta última embalando nos braços – a vácuo – o eu primeiro. Este tatearia – com a boca – toda ela, porque “leite humano é essencial para humanos”, principalmente crianças, assim como o leite de cabra dá um bom queijo – me disseram.

É doido pensar que todos fomos crianças. E aquelas fotografias – minhas e delas e suas – nos mostram tão como-a-gente-era-de-verdade. Na dela, é uma moça confiante, que sabeoquêquer, mas eu a conheço, conheço suas fraquezas… gosto que as compartilhe comigo. Numa foto dela ainda criança, porque um dia já foi também, ela sorri enquanto pula na cama da mãe, como se o mundo fosse só isso, vejam só! Assim como eu devo ter também uma fotografia de velho, porque já sou e um dia serei mais ainda, em que eu tento passar confiança. Olhem, sou alguém a quem se pode confiar um trabalho – ou filha -, não sou desses que passa as tardes a pular na cama desesperadamente, rindo da cara da responsabilidade… Como se ela fosse sua mãe te chamando para tomar banho. “E lave bem as orelhas!”

Cê tem brochoves?

Há muito mais entre o céu e a terra do que o homem paulistano pode imaginar. Mas nada disso é chuva, então não nos serve.

Faz séculos que não chove. Na última vez, ela veio com tanta força, a chuva, que… tava na cara, demoraria a voltar. Cuspiram bolas de gelo do céu, direto em nossas cabeças. Me fez lembrar quando tinha uns 10 anos e já era chato: “nevou ontem, nevou sim, pergunta pro meu pai”, eles me falavam, enquanto eu insistia que em São Paulo não neva coisa ninhuma!

Na última quarta-feira, vi naquelas tevezinhas que instalam no ônibus que a Cantareira chegou a 20% da capacidade. Sabe… se for verdade, é como se você pedisse um copo d’água pra alguém e só te trouxessem um dedo ou dois – de água, claro. “Tava com sede tamém, bebi no caminho, foi mal”. Busca mais, então, carai!

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