Intermitente

Esses dias pensando, veja você, cheguei à conclusão inevitável de que, diante de tanto desemprego, a melhor solução é roubar. Isso, roubar. Porque tem quem repudie veementemente isso, mas na primeira oportunidade passa a enganar. E enganando toma gosto, tanto gosto que passa a enganar a si mesmo, e logo não está, de consciência limpa, enganando ninguém, apesar de estar, e opções para enganar têm de monte, toda uma sorveteria de sabores de picolés em forma de pirâmides e empreendedorismo de palco digital e coaches. Roubar é muito mais honesto e confiável. Até porque com o desemprego como está as opções além de roubar são poucas. Aliás, o subinconsciente coletivo da nação exploradora e explorada deu pra levar ao extremo a máxima de melhor pouco que nada. O tal do trabalho intermitente por exemplo que está pagando por aí até o mínimo de 140 reais ao mês. 140 reais, vejam, é tão pouco que há 20 anos já não era muito. Desque inventaram o real, arrisco, não é tão difícil ver ele quanto hoje. A não ser roubando, claro. Daí minha constatação que vinha e ia e depois ficou de vez. Porque a última vez que tinha visto uma nota de 100 foi nas mãos da caixa do banco. Aliás, várias delas. E porque o banco ali com tantas e eu com nada?

Saí de casa com o que achei mais ameaçador possível, neste caso uma faca de carne que só passou a ter novamente algum corte, já que não anda treinando com carne, pois carne não há, depois de eu acabar com a pia numa tentativa bizarra de afiação que quase me custou também o dedo. Como o banco é muito pra mim, sou novato, afinal, optei pela lotérica, que recebe com a mesma crueldade o pouco salário que conseguimos, quando conseguimos, em papéis de cobrança verdes para luz e azul para água e nos deixam, por mais manjada que seja esta estrófe coloral, no vermelho.

A ocasião faz o ladrão, sempre ouvi. E não me faltaram oportunidades, que agora me parecem muito mais fáceis e práticas, nos quatro quarteirões que separam minha casa da lotérica. Uma senhora com sacolas pesadas de compras, uma moça jovem distraída, como são os jovens, com um celular na mão e duas coleiras com seus respectivos cachorros de pelo caramelado na outra, um senhor que carregando uma televisão para dentro de certa casa deixou as portas do carro abertas com chave, celular, toca cd e tudo que se tem direito de roubar dentro de um carro, inclusive o próprio carro. Mas tal como o jogador mediano do time, que precisa na disputa de penais partir com confiança, determinado a bater no canto que treinou a semana toda, fazer o tento e garantir o bicho e a renovação do contrato por mais uma temporada, parti eu decidido a não mudar o meu plano inicial, a lotérica, o celeiro de craques da fauna tupiniquim, peixe, onça, micos, araras, até tartarugas, tá valendo, são animais simpáticos e até tive um quando criança, mesmo que não tenha durado o suficiente para guardar lembranças boas, tampouco ruins.

Pedi para a moça do caixa, a contadora de notas altas, o programa da loteca para o final de semana. Observei o ambiente, para além dos caixas e à minha volta, além de conferir, claro, que o Corinthians ia enfrentar o Botafogo fora de casa, que apesar de ter um time inferior, esse último, costuma tirar pontos dos times de cima da tabela quando em seus domínios. Se eu colocasse derrota e empate já queimava minha dobra e eu só tinha uma chance. Era tudo ou nada.

A caneta não funcionava. Mal sinal. O barbante que prendia ela à mesa era de péssima qualidade. Bom sinal. Nos bancos eles usam correntes para prender as canetas. As mesmas correntes que a gente consegue tentando assaltar um banco. Se a segurança da lotérica era tão falha a ponto de não se preocupar em proteger as canetas, tão fundamentais para o funcionamento das apostas diárias e, por conseguinte, para a retroalimentação do pequeno sistema capitalista que ali respira triunfante, porque não seria desleixada com todo o resto?

Girei a maçaneta de casa, com a aposta que fiz, sem dobra no Botafogo x Corinthians, porque o time do Corinthians, segundo um senhor que estava na fila da lotérica e que me pareceu bastante confiável, teria cinco desfalques para a partida no sábado. Botafogo na cabeça, portanto, e acabei gastando a dobra com um ABC x CRB. Os caras da Loteca sempre botam uns jogos assim de times geralmente com nome de cidade de interior do Mato Grosso ou um confronto de siglas, como era o caso, segunda, terceira, divisão a quatro, para que a gente não consiga de jeito nenhum fazer os 13 pontos, quem dirá os 14. Ah sim, obviamente não tinha todas as informações que precisava para seguir com a segunda metade do meu plano da lotérica, que envolvia meter as minhas mãos nas notas de alto valor de troca. Mas consegui bastante coisa por uma visita. Me dei por satisfeito e ainda consegui uma dica que podia me ajudar com a loteria esportiva do bom senhor da fila da lotérica. Continuava confiante do canto em que ia bater o penal, foi só uma paradinha estratégica que, me parece, ainda é permitida na regra, desque não ocorra já em cima da marca da cal.

Quando o goleiro ciscasse para o lado, bateria no outro, de modo que ele nem sairia na foto. Esse foi o plano naquela sexta-feira véspera de Botafogo x Corinthians. Botei déizão no bilhete único, o que mal dá pra ir e voltar do centro, e apresentei uma nota de 20. Essa foi a senha, sempre é, para a caixa dos dedos habilidosos dizer, vai levar o bolão da quina hoje?, todo dia tem esse maldito bolão da quina. Vou levar tudo!

Era o que eu devia ter dito e feito. Mas não levo jeito para roubar, nem para apostas esportivas, pois acaba de acabar em 3 tentos a 0 para o Corinthians, com desfalques e tudo, mesmo fora de casa, definitivamente eu preciso parar de confiar no Botafogo. Vendi esse texto para o autor que agora o assina, seja lá quem ele for, pela quantidade de reais-hora equivalentes ao tempo que gastei escrevendo em conformidade com a nova e abençoada, né, e moderna regra trabalhista. O que me garante ao menos uma nova chance de ir à lotérica, ver se tenho mais sorte dessa vez.

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