Micro-crôni-conto de ficção científica para o 12 de junho*

Fiquei pensando outro dia em como seria voltar no tempo. Você me disse que estava com sono e que eu fiquei te cutucando e te atrapalhei, e foi por isso. Fiquei pensando em como seria ir direto na sua casa, a 30 minutos de trem (talvez mais antes, porque hoje em dia os trens são novos, né), e dizer que a gente já namora no futuro, ou melhor, no presente, que vamos casar, quando der, e se por exemplo a gente começar a juntar dinheiro agora (em 2008, digamos), vai ser mais fácil lá ou aqui, mesmo não tendo como saber quanto tempo mais teríamos pela frente (já que eu escolhi ir pro passado primeiro). Fiquei pensando como faria, aliás; se transferiria pro meu eu do passado também memórias com números da loteria ou de repente apostaria em esportes. Quem sabe na LDU como campeã da Libertadores… E como faria para não me sentir egoísta por mudar o nosso mundo e não o ao nosso redor, com todas as informações privilegiadas que teria. E quão perigoso seria isso, se a consciência pesasse demais. E se você não quisesse me namorar? Tem essa possibilidade. Eu ficaria esperando até 2011, trabalhando nos empregos que, já sabia, não ia gostar? E os empregos que gostei, em uma segunda chance, seria aprovado? Teria que cursar faculdade no mesmo ano, no mesmo lugar, para te encontrar? Se por acaso não deixasse o cabelo crescer, chamaria sua atenção mesmo assim? Poderia já escrever minhas reportagens mesmo antes de entrevistar as fontes, pois já sei o que vão falar? Essa é a merda, né, esse lance da vida não ter rascunho ou ensaio, mas tendo essa possibilidade, sem precedentes, saberia alguém o que fazer? Outro dia você me disse algo que eu já tinha ouvido, que sempre faz algum sentido: que não existe viagem no tempo, porque senão veríamos viajantes do futuro. Mas se eles apenas voltam para seus eus do passado, como sugeri aqui, sem se duplicar? Se não contam pra ninguém que vieram de outro tempo ou mesmo não têm consciência disso? E se contam, como alguém acreditaria? Ou mais: e se nesse microsegundo do universo em que vivemos, não há nada interessante a revisitar? Quero dizer, não para eles. Eu voltaria no tempo, para viver mais com você.

*publicado na data correta, na página pessoal do autor no Facebook

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