Passe Livre

Não, senhor, eu não sou estudante. Já fui. Escola pública, sim, senhor, faculdade particular. Sabe como é. Mas não sou mais. E aí, posso passar por baixo?

O senhor me conhece, sou trabalhador. Quer dizer, já trabalhei muito. Tô dando um tempo. Disponível no mercado de trabalho. Sabe como é.

E aí, posso passar?

Chama o prefeito, o governador, quem for. Quem tiver que chamar.

Já que o motô tá de cara feia, deixa eu passar logo e vamos acabar com isso. Que me diz?

Não, senhor, tô indo ver emprego nenhum. Já viu alguém procurar emprego de sábado?

Deixa eu passar?

E pobre não pode se divertir, não pode namorar? Só pode passar se for pra procurar emprego ou estudar? Todo mundo tem direito de ser feliz! Tá escrito em algum lugar. Hei de estar! Posso passar por baixo?

Olha aqui, eu tenho essa bala no bolso. Tá faltando duas, mas eu vendo mais barato. DESCULPE ATRAPALHAR A VIAGEM DE VOCÊS… Que que há? Não posso trabalhar? Calma, motô, eu desço logo. Vou chegar num entendimento aqui. Não é, meu senhor cobrador? Vamos, homem… deixa eu passar!

Tô indo ver minha nega, mora lá pro Itaim, longe demais, 3 e 50 demais. Imagine só, meu senhor, faz as contas aí.

Eu já fiz. Sabe quanto custa só pra gente se vê, sem casquinha, sem cinema, só sofá e TV? É 5 e 45 pra ir, mais 5 e 45 pra voltar. Vamos lá, homem. São 10 e 90 o dia. Imagina isso num mês!

O quê? Não, não, não e não, meu senhor. Eu não posso namorar alguém daqui.

Não e não, mulher não é tudo igual. Ainda mais ela. Cê tem que ver! Se conhecesse ela, nem tava fazendo esse jogo duro. Nem o motô. Juro que depois convido vocês pro casamento. E TODOS OS PASSAGEIROS PRESENTES! DESCULPE ATRAPALHAR DE NOVO.

Cêis vão acabar com a felicidade no mundo!

Ok, ok, se felicidade não é direito meu, e aquele negócio de ir e vir? Quero meus direitos!

Pode deixar, que lá no trem eu me viro. Hoje tá sem trem, é Paese, e nem precisa mostrar papel nenhum pra subir no ônibus, que eu sei. Também, né, o pessoal paga pra ir naquele trem bonito, com ar condicionado, e ganha em troca um papel e um ônibus lotado, sujo e quente? Não tem quem guente. A não ser eu, é claro, porque o amor é maior. Até parece uma palavra com a outra. Amor, maior, maior que o amor não tem. Só mesmo essa passagem. Tá caro demais, hein, tá louco!

O cobrador bateu o pé, o motô também – no freio. Antes de eu descer, o motô disse que se eu não tava satisfeito com o preço da passagem era pra eu protestar. Respondi que pra ir protestar, ele ia ter que me arranjar uma carona. Ele fechou a porta no meu calcanhar e deu carona pro meu chinelo.

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