Quase nove

Faz uns 8 anos – é, nossa, oito anos. Três caras que haviam repetido de ano, todos por motivos diferentes, mas estavam ali, imaginando como seria viver dois anos seguidos como se fossem um só – um dos caras já sabia como era. Sentou à frente, tinha cabelos a cortar e quase nenhuma barba. Os outros dois também não tinham, quase ninguém tinha barba naquela época, nem os repetentes. O cara se sentou à frente, quase na primeira carteira, acho que foi na segunda. O segundo cara se sentou ao fundo, no meio, e, incentivado por outros caras com quem fez alguma amizade, começou a provocar o cara lá da frente, de infantis olhos verdes, óculos e sorriso babaca. “Harry pooootter, pooootter”, a semelhança era lembrada e ecoava na sala. “Hey, cara, chega aí”, e, no mesmo dia, já voltaram conversando – a passos rápidos, já que o segundo cara tinha 15 minutos para chegar em casa, almoçar, se trocar e ir pro emprego, no centro – sobre vídeo-games. O terceiro cara se juntou aos dois primeiros, uma, ou duas, semanas depois. Repetente também, como adiantei. É, isso junta as pessoas.

A mãe do primeiro expulsou os outros dois algumas vezes, mas eles continuavam indo lá, na casa dele – não tinham muitos lugares pra ir. Eles arrumavam uma garrafa de refri vazia, às vezes, enchiam ela até quase a metade de água, o resto de pinga e suco em pó; e saiam por aí, contando os segundos que cada um mantinha a mistura virada, escorrendo o líquido pela garganta. Jogavam uns jogos de tabuleiros que causariam vergonha a qualquer um com o mínimo de bom senso, faziam alguns poucos planos…

O segundo cara tinha medo de não ter amigos pra vida inteira, então decidiu que os outros dois seriam esses caras.

E eles estavam lá, juntos, quando o segundo bebeu pra caralho e o terceiro teve o pescoço violentamente chupado por uma gordinha bastante simpática. O segundo correu com a calça do terceiro, que a tinha tirado para entrar na piscina, pela rua – duas ou três da manhã -, girou acima da cabeça e a atacou por cima do muro, na mesma piscina.

Noutro dia, o segundo bebeu pra caralho – é, de novo – e tarou a gerente da lanchonete que o terceiro trabalhou, enquanto o primeiro vomitava na pia cheia de louça… Linguiça e vinho! Combinação que sempre resultou em comida espalhada pelo chão…

Eles compartilharam empregos ruins… como quando o primeiro e o segundo iam pro centro de cabeça raspada – pra sorte deles, não trombaram nenhum punk nessa época.

O terceiro cantava – e os outros dois olhavam, desapontados. E os outros dois jogavam futebol no vídeo-game, enquanto o terceiro olhava, desolado.

Eles falavam dos poucos amores que tiveram e comiam pastel na feira. E quando eles acharam sobras de pastel doce embaladas em cima dum saco de lixo na rua, levaram para a escola e ofereceram para os outros e comeram também – tinha açúcar e canela. Acharam aquilo entre o intervalo de uma corrida – e o terceiro sempre era o mais rápido – e uma mijada no carpete da loja de tapeçaria (?).

Que os filhos de cada um deles conheçam os outros dois…

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