A quem sobrar – de Murillo Magaroti

No dia em que eu morrer.

No velório, quero salgadinhos, anota aí: coxinhas… empadas, esfirras e… só. Dos bitelo, por favor. Nada daquelas misérias de buffet infantil. Quero daqueles que só a vó Maria, a tia Tiquinha ou a Dona Lenão sabem fazer. Se elas estiverem mortas – o que é bem provável – contrate alguém que faça mais ou menos igual. Coxinha só de frango, esfirra só de carne e empada só de palmito – camarão também, se tiver bastante alérgico entre os convidados.

Quanto aos convidados: devem ser convidados MESMO. De modo que quem for bicão deverá ser expulso – educadamente. Envie convites para os mais chegados. Se não tiver ninguém para convidar, contrate gente – bonita. Fique tranquilo(a), eu arcarei com os cachês.

Não quero só salgados. Sirva também bolo e cerveja. Cerveja – qualquer marca serve, a que estiver mais barata. Despeje a cerveja em copos, assim ninguém vai ficar reparando, tipo “Não acredito! Que velório é esse que servem Nova Schin?”

Bolo – Deve ser impreterivelmente de chocolate com recheio de coco, vulgo prestígio. Cobertura de chocolate e ainda com chocolate granulado – um grânulo para cada dia de vida meu. Recheio bastante cremoso e enjoativo. Sirva em guardanapos. Assim, os convidados irão melecar toda a mão e não vão querer repetir. Guarde o que sobrar dentro do caixão para os decompositores terem um tira gosto. E não deixe aqueles que irão carregar o caixão comer do bolo, a fim de não melecarem meu caixão. Ah sim, salgadinhos ficam proibidos para eles também, caso estejam muito engordurados.

Os mais velhos deverão carregar meu caixão. Quero ver gente bufando. Se precisarem fazer pausas até a cova, não vejo problema. Não tenho pressa. Poderão ir ao banheiro, mijar, até duas vezes… ou 3, escolha gente velha MESMO.

O caixão deve ser escuro. Não coloque bandeira nenhuma nele. Ele deve ser quase todo liso, apenas com os dizeres em tinta vermelha “pro inferno”.

Peça para o mais velho dos velhos ofegantes e mijões medir a cova. Quero ter garantia dos Sete Palmos. Cova rasa de cu é rola!

Nada de discursos. Muito menos em latim. Recite um poema meu (anexo). Novamente, o mais ofegante deve fazer. Se algum alérgico estiver passando mal por conta das empadas de camarão, peça gentilmente para o coveiro abrir outra cova – ou quantas forem necessárias – longe da minha.

Nada de florzinha no meu jardim. Quero que plantem um jequitibá. Só me desenterrem após o jequitibá atingir 30 metros.

Nada de cruzinha de lápide. Quero uma daquelas em forma de sorvete picolé – de blue ice. Nada de “bom marido, bom filho, bom pai, bom homem ou bom cristão”. Escreva na lápide APENAS e a giz de cera LARANJA “O de baixo sou eu”.

Ps: Coloque uma foto em que eu esteja bonito, ou, pelo menos, sexy. Coloque a foto de outra pessoa, caso não encontre nenhuma boa minha (sugestão no anexo).

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5 comentários sobre “A quem sobrar – de Murillo Magaroti

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