Catálogo – de Henri*

A aula era de Literatura, se não me engano. Primeiro semestre da graduação, duas semanas e eu só conversava com uma menina que sentava atrás de mim, Gabi, não gostava de nada do que eu gostava, mas era muito bonita. Sala grande, lotada, era um incomodo: cadeiras muito perto uma das outras. Ao meu lado não sentava ninguém até aquele dia.
Gabi falava, e muito, pouca coisa importante, mas vivia falando, eu a ouvia naquela manhã. Alguém me cutuca, era um cara, nunca tinha ido, tanto que se sentou ao meu lado, o único lugar vago.
– Chinaski?
– China o que?
– Esse texto ai. É do Chinaski. Tá escrito ali Henry, parece coisa do Chinaski. Porque se for do Chinaski, eu já li muito ele, é dele sim, já vi num livro. Henry Chinaski!
Ele disse aquele nome mais vezes do que uma pessoa normal diria, eu não fazia ideia de quem era. Ele me olhou e percebendo meu semblante confuso:
– Bukowski. Nunca ouviu?
– Ah, sim. O velho safado.
Eu até tinha alguns livros dele, mas eram mais como objetos de decoração, eu preferia assistir filmes e disse isso a ele. “… E quanto pior melhor! Já ouviu falar de Ed Wood?”.
Ele não gostava de assistir filmes. Só gostava de ler e de escrever, escrevia muito.
– Desculpe, eu não me apresentei. Meu nome é Henrique. Tenho um primo Ricardo e meu pai também se chama Henrique, tinha Rick demais numa família só. Henry é praticamente meu nome, não atendo por outro apelid…
– O meu é Miguel. Você escreve bem.
Ele pegou uma pasta cheia de folhas soltas. Muitos textos, principalmente poemas.
Miguel era um sujeito muito solitário, muito mesmo, eu entendo de solidão sei o que digo, mas segundo ele vivia cercado de mulheres. “Elas vêm e vão”, se eram reais ou não, isso pouco me importava. Seus textos eram sobre cada uma. Putas e santas. Loiras, morenas, ruivas, negras, japonesas, enfim, uma infinidade delas, “tenho o número de quase todas”, com certeza um verdadeiro catálogo. Ele chegava e me mostrava meia dúzia todos os dias, às vezes era sobre a mesma, cheguei a conhecer uma ou outra apenas por aquelas palavras, se via algo contraditório já dizia: “Nossa, logo a Sabrina, ela parecia ser tão normal”.
Ele escrevia bem, só não era melhor que eu. Era imensamente mais disciplinado, mas pecava pelo excesso, seus poemas eram exaustivos e repetitivos, sobre fodas e bebedeiras.

*Não, não é o Chinaski. E é Henri mesmo, e não Henry. Nem é um homem, é uma moça. Uma moça que lê Bukowski e vê Ed Wood sz. E ela ‘escrev(e) bem, só não (é) melhor que eu’.
Têm mais aqui, inclusive fotos da moça (+18): http://destinoparadiso.blogspot.com.br/

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