À beira do viaduto – de Murillo Magaroti

O viaduto sobe pela grama, ressecada pela poluição e pelo abandono, e na rebarba dele, ali onde tem alguma sombra, outro ser vivo, como a grama, abandonado. Aliás, dois. Duas barracas improvisadas. Uma com um cobertor todo furado e remendado; outra improvisada com o banner que sobreviveu das eleições: “os políticos e essa sujeirada que eles deixam servem para alguma coisa, afinal”.

Mais pra frente, embaixo do mesmo viaduto, mais seres vivos, mais abandono. Um rapaz fuma um cigarro no que seria um sofá, no que seria a sala de estar de sua casa – ou do que seria uma casa.

Estou a caminho do centro da cidade e sei que lá tem muito mais disso. Abandono.

Outro tipo de abandono: minha fé – pelo menos no que se refere a entidades e a super-homens.

Crianças amontoadas buscam uma casquinha no mc donalds com quem passa. Um gole de coca, um olhar. Qualquer coisa. Cheiram cola nas latas – abandonadas na rua. Por que será que elas estão ali e eu só de observador?

Homens cagados. Pombos mais limpos que homens. Homens e mulheres, agachados num canto, cagando. Abandonados.

E eu achando que a pior coisa do mundo é um trabalho indesejado ou não ter trabalho algum. Olho à minha volta, ainda procurando o tal emprego – mesmo que indesejado; outro.

Vontade de me ajoelhar e agradecer a algum deus por, ao menos, não ser um daqueles caras do viaduto ou uma das crianças entregues à cola ou um dos que agacham e cagam atrás das bancas de jornal. E eu faria isso, se não achasse algo tão egoísta de se fazer.

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