3 – de Murillo Magaroti

Era uma vez um homem, de pele manchada pelo sol e cabelos pulando para o cinza, que descobriu a arte. Há muitas formas de arte, aliás, a que lhe fascinou foi a pintura. Viu, pela primeira vez, um quadro numa lixeira de prédio, das grandes – grandes grades encurvadas. O quadro, de nenhum pintor famoso nem nada, estava jogado nessas grades, com a moldura apodrecida e a tela rasgada. O homem passava com sua carroça, às 7 da noite, quando avistou a tela. Já estava na rua há mais de 14 horas trabalhando, retirando dela o que a maioria julgava como lixo. Algo dizia ao homem que aquele lixo, julgado e jogado, era especial, ainda mais que as latinhas, os papelões e até o cobre que alimentava seus três filhos e esposa. Ele retirou a tela, levou para casa, restaurou e pendurou, na parede do único cômodo, com pregos, cola e durex.

O homem colocava os filhos para dormir, e tomava, quando tinha, um café com a esposa, enquanto observava o quadro. Um rio vinha lá do fundo da pintura: bem fininho lá no começo, e formando quase que uma lagoa cá mais perto. Árvores que, de tão carregadas, deixavam frutas pelo gramado bem verde. Rochas, como icebergs na grama e um céu bem azul completavam a paisagem. O homem se imaginava naquele mundo: tomava banho no rio com a esposa, e seus filhos se fartavam naquela infinidade de frutas.

Depois que achou o quadro, começou a procurar mais exemplares pelas ruas. Ás vezes, adiava a hora de voltar para casa. Isso, porém, não significava que conseguira mais dinheiro naquele dia: ele apenas vagara pelas ruas, atrás daquele mundo do quadro.

Teve um dia de sorte: achou quilos e quilos de fios de cobre num terreno abandonado. A velha carroça estava completamente vazia a essa altura do dia – e quase não foi possível puxá-la até o ferro velho mais próximo. Ainda por cima, descobriu que o preço do cobre era maior do que se lembrava. Pudera, fazia meses que não achava nada do tipo.

Ele pegou o dinheiro e deixou o local – agora sem o peso nas costas. O bolso sim estava pesado, e, dessa vez, não era por causa das moedas. Estava a poucos quarteirões de casa, quando se deparou com uma loja de móveis antigos, onde vendiam, também, algumas peças de decoração, entre elas obras de arte. O homem viu aquilo como um sinal, entrou e comprou duas daquelas obras: uma bela igreja que mais parecia um castelo – o homem só conseguia dizer que se tratava de uma igreja pela cruz ao alto de uma das várias pontas do edifício; a outra obra trazia um jardim a perder de vista, flores de todos os formatos e cores, o sol poente e rastros de nuvens. Ele tinha, agora, três mundos diferentes. Depois do banho de rio com a esposa, eles apanhariam alguns frutos para viagem, se casariam naquela bela igreja e passariam a lua de mel se amando entre as flores, belas e incontáveis, daquele jardim. O mundo real, porém, era muito diferente daqueles três. “Onde você estava com a cabeça?”, a esposa o questionava. Ele respondeu, é claro, que a cabeça estava naqueles mundos. Inconformou-se com o fato de a esposa pensar diferente. “Não consegue se imaginar nesses mundos?”. Claro que não, ela dizia. Dizia, ainda, que se imaginava sem comida, debaixo de uma ponte. Aquele casebre era humilde, mas, ao menos, eles tinham onde morar e criar seus filhos. Por fim, deixaram de discutir: o dinheiro era muito e havia sobrado o bastante para pagar todas as contas atrasadas e comprar feijão para as três crianças.

O nosso amigo queria muito mais. Não reclamava da vida que levava: muito pelo contrário, agradecia seu deus todos os dias por aquilo que tinha. Pensou um pouco sobre – tinha muito tempo para isso, enquanto caminhava, na madrugada, pelas ruas frias da cidade. Encontrou um artista de rua nessas andanças. Eles começaram a conversar. “O senhor gosta de arte, então? Quais pintores prefere?”. O velho homem não tinha resposta para isso. Tinha três quadros. Mal sabia ler e, ademais, as assinaturas eram bem complicadas de serem entendidas. Conversou com o artista, um rapaz de olhos claros e roupas esgarçadas e sujas, por horas. Adiou-se na volta para casa e, novamente, voltou de bolsos vazios. Aliás, só voltou porque o jovem insistia para que ficasse com uma de suas muitas telas.

Esbarrou o jovem artista outra vez, não muitos dias depois. Foi um encontro rápido. O rapaz correu em direção à carroça: uma folha pendia e balançava de uma de suas mãos – acompanhava o ritmo da corrida. “Fiz este para o senhor”. “Senhor está no céu, meu filho.” Aceitou o presente, o jovem se afastou e o velho seguiu seu caminho. O presente – um esboço do carroceiro – trouxe lágrimas àquele rosto manchado de sol. Ele precisava daquilo. Precisava se sentir assim mais vezes.

Incrivelmente, aconteceu de novo: mais cobre, muito mais. Ele se ajoelhou e deu graças e chorou. Recompôs-se e recolheu todo o material. Na volta para casa, com os bolsos – e peito – estufados, passou numa loja especializada em arte e comprou material para pintura: tintas, paleta, telas, pincéis. Aquele foi para ele o dia mais feliz de sua vida. E o dia seguinte foi o mais triste: a esposa rasgou as telas e jogou as tintas contra ele. O velho, caído no chão, entregue, viu sua esposa carregar as três crianças, pelas mãos, barraco afora. “O papai não vai?”, a mais jovem, Isadora, perguntava.

Nosso herói se sentiu o maior idiota deste nosso mundo. Ficou imóvel, sujo de tinta – verde, azul, magenta -, por algumas horas. Enfim, levantou-se. Não tinha mais seus filhos por perto. Não tinha nada além de três mundos – que agora pareciam tão sem vida -, algumas telas rasgadas e tinta espalhada por toda a casa. Ele pregou os quadros no teto, se ajeitou no chão, pregou os olhos neles, e ficou ali, três dias e três noites, contemplando seus três mundos, imaginando as três crianças se fartando na infinidade de frutas.

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