Sofra um pouco mais – de Murillo Magaroti

“Seja homem e não me siga”. Goethe se viu obrigado a inserir este trecho em sua obra para tentar, assim, conter a onda de suicídios entre rapazes burgueses, vestidores de ternos azuis e coletes amarelos. Se fosse hoje em dia, ele, provavelmente, usaria algo do tipo “não me segue que eu tô perdido”, e Werther ouviria pagode, em vez de ler Homero e Ossian. Cantaria junto: “Eu me apaixonei pela pessoa errada/ Ninguém sabe o quanto que eu estou sofrendo/ Sempre que eu vejo ele do seu lado/ Morro de ciúme, estou enlouquecendo”.

Os sofrimentos do jovem Werther é a obra em questão. Interessante descobrir que eu, apreciador do velho Buk e de seu subalterno, Mr. Chinaski, consiga apreciar também as palavras melosas que, com certeza, fizeram até o amigo, recebedor de cartas, Wilhelm, vomitar. Aliás, duvido que ele próprio tenha lido tudo.

O romance epistolar, ou seja, escrito por meio de cartas, traz os sofrimentos do jovem Werther, como está claro, eu acho, no título. Ele se apaixona não-perdidamente, porque perdidamente é muito clichê, pela também jovem – e bela e comprometida – Charlotte, e conta sobre isso para um amigo, o já citado, Wilhelm. Escrever cartas para amigos a fim de exteriorizar o que se sentia e se autoconhecer, por assim dizer, melhor, era algo comum na sociedade burguesa da época (1774) – segundo o tradutor da versão por mim folheada.

“Sofra um pouco mais, Werther!”, foi o que pensei nas páginas finais do livro. É o tipo de livro que me fez criar um termo novo: “livro-só-citação”. Sim, é impossível escolher um só trecho para postar no facebook ou colocar no subnick do MSN (nem uso mais o meu).

Uma das minhas cartas favoritas, uma das curtas:

“Ai de mim! Que vazio horrível sinto em meu peito! Quantas vezes digo a mim mesmo: ‘Se você pudesse uma vez, ao menos uma vez, apertá-la contra o coração, esse vazio seria preenchido’ ”.  – Não é exatamente isso, mas foi o que achei no Google, já devolvi o livro na biblioteca da faculdade, e não vou pegá-lo de novo (fiquei três semanas com ele, mesmo sendo um livro de 144 págs.).

O destino do jovem, claro, é a morte, é o suicídio. Isso nem pode ser considerado um spoiler – a graça do livro é como o cara chega lá. O que me motivou a começar a lê-lo, aliás, foi justamente o fato de saber que ele se mataria. Não penso em me matar – de boa, leitor, não precisa se preocupar -, não agora.

Bom, voltando ao drama dele: O amigo, muy amigo, é bem do pilantra. Porra! mostrasse as cartas pra vadia da Lotte, tentasse colocá-la no pano do cara. E, Charlotte, vulga Lotte, cá entre nós: até eu daria pro Werther, o cara tem o dom, tem as palavra que deixa as mina molhada.

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