Bebendo com o sr. Chinaski – de Murillo Magaroti

– HEY! É a casa da Dee Dee?

Um velho, grande, expressões cansadas, um pouco corcunda, cabelos penteados para trás. Olhos gentis.

– N-não… Como entrou aqui?

– Pela porta – agachou-se, com certa dificuldade, e pegou uma garrafa de vinho vazia – Tem mais disso por aqui?

– Claro! – lhe alcancei uma cerveja e fui até a cozinha procurar por mais. Enquanto saía do quarto ainda o vi tratando de tomar conta do meu lugar.

Puta que pariu. Devo tá muito louco mesmo. O velho safado, aqui… E agora? Esse filho-da-mãe bebe pra cacete, só tenho algumas cervejas.

Abri a geladeira e a vi tomada por cervejas. Todas garrafas. Bem geladas (fiz questão de passar os dedos sobre todas elas). Filas de cervejas, e mais filas em cima. Era um verdadeiro milagre cristão. Já imaginava o vapor gelado se esvaindo nas garrafas recém-abertas. Abri a torneira da pia na esperança de encontrar vinho. Nada. Voltei pra geladeira e apanhei quatro cervejas e voltei pro quarto.

O velho já havia secado a que eu lhe deixara. A garrafa rolou até os meus pés quando entrei. Ele segurava um livro na mão. Volume 1 do crime e castigo.

– Você lê essa merda?

– Ainda não. Tô ocupado com essa merda aqui – lhe alcancei o Factótum.

Passei uma cerveja pra ele e abri outra pra mim. Fiquei olhando para a fumaça que saía dela. Quando meus olhos voltaram pra ele, sua garrafa estava de ponta cabeça e os últimos goles de espuma desciam para a sua goela. Matei a minha numa só golada.

Ele começou a falar sobre música. Perguntando-me se eu tinha um rádio para ser ligado.

– Esquece – eu disse –, não existem estações de música clássica por aqui e você se assustaria com o conteúdo das outras.

– Você não é um maldito poeta, é?

– Escrevo. Não poesia.

Eu disse que preferia cinema a música.

– Já viu a Dança de Jim Bean? – ele disse.

– Não.

– Bom filme esse. Tem uma bela cena de luta.

Tomei um trago.

– Vamos lutar, garoto.

– Não.

– Vamos lá – já se levantando – Anda, estou enferrujado e tenho m…

– Mãos pequenas – eu disse – tô sabendo.

– Então? – dava socos no ar e saltitava.

– Senta aí e bebe.

Tomei o último gole de uma garrafa. Ele se levantou e buscou mais. Era uma rodada de cada buscar. Ele ficou relutante quando lhe sugeri isso, mas acabou concordando. Formávamos uma boa dupla. Buscando e secando as garrafas por dentro, não sobrava nem espuma. Era a vez dele. Demorou mais tempo que de costume. Voltou com quatro cervejas e uma garrafa de uísque. Mal conseguia carregar. Peguei a garrafa de uísque, escocês, antes que se espatifasse no chão. “Não achava um maldito bar”, ele dizia.

– Sabe, garoto, você tem que deixar que o texto venha até você.

– E se ele não chegar?

– Arrume um emprego.

– Já tenho um. Paga o aluguel.

Servimo-nos de uísque.

– Sabe, todos se referem a você de forma até… desrespeitosa. “Velho filho de uma puta, desgraçado”, eles dizem. E eu, agora, te conheço.

– É. E o que me diz?

– Eles ficariam um pouco desapontados.

Outra rodada. Já havia perdido as contas. Meia geladeira, talvez.

– O que vem depois?

– Da morte?

– Ééé.

– Nada – ele disse.

– E o pardal vermelho?

– Voou. É isso que os pássaros fazem.

Ficamos em silêncio por algum tempo.

– Posso bater algumas palavras? – ele falou, apontando para o computador – Acho que o conto voltou.

– Por favor… – me levantei, ajeitei a cadeira pra ele e lhe prometi mais cerveja.

Quando voltei com as quatro garrafas de costume, a cadeira estava vazia. A garrafa de uísque escocês também. Não tinha conto nenhum no computador. Mas ele deixou algo:

 

O mundo inteiro é um saco de merdas se rasgando. Não posso salvá-lo. Sei que nos movemos em direção à miragem, nossas vidas são desperdiçadas, como as de todo mundo. Eu sei que nove décimos de mim já morreram, mas eu guardo o décimo restante como uma arma.

Somos umas monstruosidades. Se pudéssemos nos ver de verdade, saberíamos como somos ridículos com nossos intestinos retorcidos pelos quais deslizam lentamente as fezes… enquanto nos olhamos nos olhos e dizemos: ‘Te amo’. Fazemos e produzimos uma porção de porcarias, mas não peidamos perto de uma pessoa. Tudo tem um fio cômico.

A Terra inteira não é nada além de bocas e cus engolindo e cagando e fodendo.

 

Hank

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3 comentários sobre “Bebendo com o sr. Chinaski – de Murillo Magaroti

  1. vinicius buzzetti ( o cara dos quadrinhos)

    Lord, na boa lord, esse é seu melhor texto que li! Carai! Gosto de seu estilo bêbado que escreve( nem sei se você tava bebado enquanto escrevia, mas enfim). E passou de duas paginas! parabéns! Lendo suas historias dá vontade de beber contigo e falar merda( se eu já sou ” feliz”, comovocê diz, sobriu imagina bebado).

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