Saga Deadline, Parte 1 – de Murillo Magaroti

Começou aos poucos. Passava em frente às bancas de jornal e queria comprar tudo. Ler tudo. Saber de tudo. Quando alguém falava sobre alguma coisa da qual não sabia eu ficava mal, não sabia o que dizer, o que fazer. Logo vieram as crises de asma, insônia – e com ela a vontade de tomar ainda mais café -, e as crises de riso. Depois de um tempo passei a sentir vontade de fazer perguntas para estranhos na rua. “Esse deve ter uma boa história para contar”, pensava. E passei a corrigir as pessoas. Meus amigos, minha mãe, namorada, meus irmãos. Perdi contato com muitos deles após alguns “para mim fazer”. Sonhara na noite anterior com o NP, com o edifício Joelma e com a tropa de choque batendo os cassetetes contra os escudos e o ladrar dos cães, quando resolvi procurar um médico. Seis meses depois ele me atendeu. Passou-me o diagnóstico.

– Sorte a sua termos diagnosticado a tempo…

– Podia ter sido há seis meses atrás, pensei. Depois pensei que quando se usa “há” não há necessidade de se usar “atrás” também. E… se eu fizesse uma reportagem sobre o tempo de espera para uma consulta? Ele continuava a falar:

– …a síndrome do estudante de jornalismo é muito perigosa, há casos em que o paciente faz de tudo para conseguir uma pauta, e, nesses casos, eu indico a internação imediata…

“Deve ser por isso que tentei empurrar aquela velhinha na frente do trem”, pensei.

– Não posso ser internado, doutor. Eu tenho um freela para fazer nesse final de semana, sabe.

– Não é o seu caso. AINDA. Como eu disse: você teve sorte.

Fiquei feliz por saber de algo que ele desconhecia. Mesmo não tendo como ele saber. Aquilo tinha sido entre a velha e eu…

O médico me recomendou o grupo JA e uma dúzia de remédios tarja preta. E alertou:

“Seu caso já é considerado grave, para gravíssimo é um pulo”.

– M-mas… doutor. Não tem nada de errado comigo.

– Infelizmente, eu não estou errado em meu diagnóstico.

Foi quando ele me mostrou o cheque que eu havia preenchido. O meu plano de saúde, obviamente, não tinha cobertura para aquele tipo de “especialidade”.

ESTUDANTE DE JORNALISMO PAGA 100 REAIS POR DIAGNÓSTICO EQUIVOCADO

– Tá, e o que é que tem? Você queria uma maldita linha fina também?

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