9ª do Beethoven, meu cachorro – de Murillo Magaroti

Comprei um livro do Hemingway por 4 real. Paguei 3 num bloco de notas. Sei lá quantas folhas, prontas para serem preenchidas. E é isso que faço nesse momento. Obviamente, você não vê o bloco. Eu sou mágico. O texto vai do bloco pro caputador.  E não é só isso: nesse processo, de lá pra cá, o texto muda 67,65%. Normalmente pra pior. Então, se não gostar desse aqui, leia o do bloco, eu deixo.

Minha letra é dessas que só farmacêutico consegue decifrar. Ou essa galera que lê Dan Brown. Há uns dias, vi um anúncio de voluntariado em escrever cartas. “É uma experiência única”, uma das voluntárias dizia. Ter tempo livre – ok; gostar de escrever – ok; vontade de ajudar – maybe; boa caligrafia – PÉÉÉÉ. Faltou isso pra eu ser a Fernanda Montenegro. Se pelo menos eu tivesse feito caderno de caligrafia… Ah, é, eu fiz vários deles. Pensando agora, minha letra não é tão ruim assim. Ela é de difícil compreensão – para pessoas preguiçosas e mesquinhas, que fique registrado – por um bom motivo. Sim, temos uma explicação, uma história. Então, senta aí (mesmo que pra isso tenha que fingir uma gravidez).

Uma professora preguiçosa; uma lousa vazia; e uma menina que, não sei porque cargas d’ água, misturava letra de forma com de mão. Eu acabei copiando a letra dela. É, ela passava quase toda a lição para a professora. Além disso, eu usava a tática de distorcer a letra, para a professora não entender e me dar visto/nota sem se notificar/importar se eu respondi “gosto de batata frita com mostarda, catchup não” na “2-) Quem foi Mem de Sá?”.

Os professores têm orgulho da profissão e acreditam que podem mudar o mundo até o momento em que recebem o primeiro holerite. E não só com eles que esse pedaço de papel, aparentemente inofensivo, tem o poder de te jogar na merda. Uma vez lá, só com a cabeça de fora, a única sensação boa vem ao ver fios de cabelo – e carecas também – desaparecendo. Pois é, sempre vai ter alguém mais fodido que você. Vai lá, aponte e sorria.

Holerite: Quantos suicídios já causou? A sensação de abrir holerite, talvez, às vezes, seja pior que abrir presente no natal e descobrir que não é o tênis que acende a luzinha atrás. Eu ganhei sáporra. Fui um bom menino, papai noel trouxe. Nesse momento, me imagine apontando pra você, que não ganhou, e rindo, pois é isso que estou fazendo, mentalmente. Que nada. Brinks. Bobagem. Para de chorar, vai. Passou. Você, afinal de contas, poderá se livrar de todas suas frustrações de garoto (a) dando aos seus filhos tudo aquilo que não pôde ter. É assim que funciona, né? O ciclo da vida – dos pobres. Isso, e se orgulhar de qualquer coisa que seu filho consiga fazer, pode ser que ele seja um gênio da física ou saiba tocar o hino nacional num papel de bala. Mas, alguém tem que fazer algo a respeito. Sobre o holerite. Isso tem que parar. É justo isso? Eu digo basta! As pessoas se sentem felizes com coisas como a vitória do time do coração, ter companhia, beber um bom vinho direto da garrafa, almoçar num restaurante bacana, ouvir o filho tocando o hino no papel – se babando todo. Até mesmo quando se recebe a resposta do emprego ao qual se candidatou, e, vejam só, tu foi contratado. Conseguiu! E agora, vai trabalhar – e receber holerites – e para esquecer dos holerites, vai trabalhar mais e mais. Vai trabalhar pra esquecer o trabalho. Caralho! Ou vai tomar um bom vinho direto da garrafa ou comprar um saco de balas e, quem sabe, compor uma sinfonia. Com seu filho, é claro.

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2 comentários sobre “9ª do Beethoven, meu cachorro – de Murillo Magaroti

  1. Essa coisa de “caligrafia pedagógica” é foda… sempre tive facilidade em decifra-las. (gosto de ler textos direto no bloco de anotações, assim como gosto de digita-los no bloco de notas)

    E olha só, sou dessas que mistura letra de forma com de mão!

    Tinha algo mais a comentar, mas me perdi na coisa de letras e caligrafias.

    Há olerites, lembrei… melhor trabalhar do que comenta-los! rsrs

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