No mercado – de Murillo Magaroti

Minha mãe e eu no mercado.

– Quanto que deu aí?

– Acho que uns 50 reais já, mãe.

– Vamos embora então, se sobrar eu volto.

Bep, bep, bep, bep. – Trinta e alguma coisa – a caixa.

Minha mãe pagou e pegou o troco – Muca, espera, que eu esqueci uma coisa – eu continuei ensacando as compras. Tsc, tsc, tsc.

 Louco como agimos em certas circunstâncias. Quando moleque, eu ia com meus pais ao mercado, e meu irmão ficava em casa. Por um simples motivo: eu não pedia nada. Era chato isso, mas era divertido voltar no meio do banco de trás do golzinho quadrado, comendo batata. Batata que eu não tinha pedido, é claro.

Peguei mania de não pedir nada. Inclusive, de recusar, quando me oferecem. No mercado, quando moleque, ficava reparando no carrinho de compras das outras pessoas, e também na tela do computador do caixa. “Nossa, aquela família gastou 500 reais!” Que coisa feia, né? Quando comecei a trabalhar, nossa, eu ficava tão feliz de entrar num mercado e decidir o que comprar, quanto comprar. Mania de pobre, eu acho. Pobre gasta com comida. Nem todos. Já vi muita gente comprar roupa nova sem ter mistura em casa. “Mistura”, outra mania de pobre é falar mistura. Rico fala… nem sei como eles falam, ó.

A verdade é que eu, às vezes, ainda me pego olhando para o carrinho dos outros.

Isso tudo é muito “Todo mundo odeia o Chris”, não? Minha mãe, aliás, já usou ticket refeição. R$.

 Eu tenho a impressão de que todo mundo tem um pouco disso que minha mãe e eu temos. Na vida, nos pegamos olhando para o carrinho das pessoas – e não são poucas as vezes. Flagramos muitas vezes pessoas olhando para os nossos carrinhos também. E por que seria diferente? As pessoas geralmente falam em conquistas não materiais. Falam em outras pessoas, por exemplo. Namoradas, namorados, maridos, esposas, amigos, FILHOS. Geralmente são as conquistas mais apreciadas. Mas… pessoas são colocadas nos carrinhos por vezes também.

Esse mundo louco, onde todos concordam que um pedaço de papel vale alguma coisa. Papéis coloridos. Cada cor, um valor. Quem juntar mais ao final da corrida… que final da corrida o quê? No final, você passa o bastão para outra pessoa, e se essa porra cair, foda-se, a culpa é dela…

 Legal mesmo é ver “…o olhar do parceiro, feliz, de poder comprar, o azul, o vermelho, o balcão, o espelho, o estoque, a modelo. Não importa, dinheiro é puta, e abre as porta…”

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4 comentários sobre “No mercado – de Murillo Magaroti

  1. hahaha, muito bom… vivo fazendo isso, “nossa olha quanto ele gastou… quero viver assim quando crescer…”

    Como sempre… muito bom o texto, quando sai seu livro? Estou esperando… (acho que vou entregar hoje meu conto lá na facul…)

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