guerra, para alcançar a paz

Ilustração

à espera da paz
à espera de algo que não virá
a guerra é estímulo
é como fazer algo
desfazendo as coisas

a paz como a calmaria
depois da tormenta
a paz como uma atividade sanguinolenta
a paz é vermelha ou branca?
a paz é para gente preta e branca?

a flor da morte ilustra os livros
a droga não dispensada acalma os vícios

o suicídio não é saída covarde
covardia é matar os outros
meu corpo, minhas regras,
minha lâmina, meus comprimidos guardados na terceira gaveta
entre as meias
meu salto do prédio mais alto, minha viagem à liberdade
mas e se não houver nada depois?
melhor ainda

mas estamos sempre adiando os planos
talvez, valha a pena…
mais um loose call, então
ou melhor não

no entanto, uma andorinha abatida não faz a paz
nem uma pomba, tanto faz
só existe quando todos desistem
de desejar, de comprar, de sangrar
em vão
pois nos postemos de mãos dadas, então
e agora sim
floresça em mim
a paz

ilustrará os livros que não existirão jamais

Vodca ou água de coco

Se o lugar ‘é’ de rico, em bairro fino, nobre, e vende pizza, é provável que a pizza seja de muçarela. Mas na pizzaria da esquina da sua casa, lá no Itaim Paulista, a pizza vai ser sempre de mussarela.

Duas senhoras conversam sobre. A filha de uma delas trabalha num bairro ‘de’ rico, e trouxe a novidade ortográfica pra mãe, que a repassou à vizinha.

— Pessoal tudo cheio das frescura… e nem escrevê num sabe. Vê se pode! Eu, que num fiz nem o primário…

Do outro lado da cidade, um senhor distinto, seja lá o que isso significa, discursa para o porteiro.

— Muita gente não sabe disso…

— I é?

— É sim, com cê cedilha mesmo.

E foi por causa desse cara, que um dia alertou o dono da pizzaria do bairro nobre onde mora: o ‘correto’ é muçarela, o qual tão logo consertou (este com ‘s’ mesmo) o cardápio, notado por outros donos de nobres pizzarias, as quais também ganharam novos cardápios (brindam os donos de gráficas), que nos bairros finos a pizza é de muçarela.

Agora, o real motivo para ser muçarela lá e mussarela ali é, se ainda não ficou claro, acho que não, a satisfação dos egos. Vamos a outro exemplo.

No bairro não fino, a senhora cuja filha trabalha no bairro fino vai à venda da esquina, comprar mortadela (ou mussarela mesmo), e solicita perante o balcão envidraçado:

— Me vê trezentas gramas de mussarela, por favor. (o balconista compreende)

Ao que do outro lado da cidade…

— É. Outra coisa que muita gente não sabe… é que o correto é pedir, por exemplo, trezentos gramas de muçarela, ou o que seja. E não ‘trezentas’ gramas (contorna o ar com os dedos; o sorriso triunfante no rosto).

— I é? —finge interesse novamente o porteiro.

Passe Livre

Não, senhor, eu não sou estudante. Já fui. Escola pública, sim, senhor, faculdade particular. Sabe como é. Mas não sou mais. E aí, posso passar por baixo?

O senhor me conhece, sou trabalhador. Quer dizer, já trabalhei muito. Tô dando um tempo. Disponível no mercado de trabalho. Sabe como é.

E aí, posso passar?

Chama o prefeito, o governador, quem for. Quem tiver que chamar.

Já que o motô tá de cara feia, deixa eu passar logo e vamos acabar com isso. Que me diz?

Não, senhor, tô indo ver emprego nenhum. Já viu alguém procurar emprego de sábado?

Deixa eu passar?

E pobre não pode se divertir, não pode namorar? Só pode passar se for pra procurar emprego ou estudar? Todo mundo tem direito de ser feliz! Tá escrito em algum lugar. Hei de estar! Posso passar por baixo?

Olha aqui, eu tenho essa bala no bolso. Tá faltando duas, mas eu vendo mais barato. DESCULPE ATRAPALHAR A VIAGEM DE VOCÊS… Que que há? Não posso trabalhar? Calma, motô, eu desço logo. Vou chegar num entendimento aqui. Não é, meu senhor cobrador? Vamos, homem… deixa eu passar!

Tô indo ver minha nega, mora lá pro Itaim, longe demais, 3 e 50 demais. Imagine só, meu senhor, faz as contas aí.

Eu já fiz. Sabe quanto custa só pra gente se vê, sem casquinha, sem cinema, só sofá e TV? É 5 e 45 pra ir, mais 5 e 45 pra voltar. Vamos lá, homem. São 10 e 90 o dia. Imagina isso num mês!

O quê? Não, não, não e não, meu senhor. Eu não posso namorar alguém daqui.

Não e não, mulher não é tudo igual. Ainda mais ela. Cê tem que ver! Se conhecesse ela, nem tava fazendo esse jogo duro. Nem o motô. Juro que depois convido vocês pro casamento. E TODOS OS PASSAGEIROS PRESENTES! DESCULPE ATRAPALHAR DE NOVO.

Cêis vão acabar com a felicidade no mundo!

Ok, ok, se felicidade não é direito meu, e aquele negócio de ir e vir? Quero meus direitos!

Pode deixar, que lá no trem eu me viro. Hoje tá sem trem, é Paese, e nem precisa mostrar papel nenhum pra subir no ônibus, que eu sei. Também, né, o pessoal paga pra ir naquele trem bonito, com ar condicionado, e ganha em troca um papel e um ônibus lotado, sujo e quente? Não tem quem guente. A não ser eu, é claro, porque o amor é maior. Até parece uma palavra com a outra. Amor, maior, maior que o amor não tem. Só mesmo essa passagem. Tá caro demais, hein, tá louco!

O cobrador bateu o pé, o motô também – no freio. Antes de eu descer, o motô disse que se eu não tava satisfeito com o preço da passagem era pra eu protestar. Respondi que pra ir protestar, ele ia ter que me arranjar uma carona. Ele fechou a porta no meu calcanhar e deu carona pro meu chinelo.

Infância

Coloquei, lado a lado, uma foto dela e uma minha. Eu, criança; ela, mulher feita, muito bem feita. Imaginei esta última embalando nos braços – a vácuo – o eu primeiro. Este tatearia – com a boca – toda ela, porque “leite humano é essencial para humanos”, principalmente crianças, assim como o leite de cabra dá um bom queijo – me disseram.

É doido pensar que todos fomos crianças. E aquelas fotografias – minhas e delas e suas – nos mostram tão como-a-gente-era-de-verdade. Na dela, é uma moça confiante, que sabeoquêquer, mas eu a conheço, conheço suas fraquezas… gosto que as compartilhe comigo. Numa foto dela ainda criança, porque um dia já foi também, ela sorri enquanto pula na cama da mãe, como se o mundo fosse só isso, vejam só! Assim como eu devo ter também uma fotografia de velho, porque já sou e um dia serei mais ainda, em que eu tento passar confiança. Olhem, sou alguém a quem se pode confiar um trabalho – ou filha -, não sou desses que passa as tardes a pular na cama desesperadamente, rindo da cara da responsabilidade… Como se ela fosse sua mãe te chamando para tomar banho. “E lave bem as orelhas!”

Cê tem brochoves?

Há muito mais entre o céu e a terra do que o homem paulistano pode imaginar. Mas nada disso é chuva, então não nos serve.

Faz séculos que não chove. Na última vez, ela veio com tanta força, a chuva, que… tava na cara, demoraria a voltar. Cuspiram bolas de gelo do céu, direto em nossas cabeças. Me fez lembrar quando tinha uns 10 anos e já era chato: “nevou ontem, nevou sim, pergunta pro meu pai”, eles me falavam, enquanto eu insistia que em São Paulo não neva coisa ninhuma!

Na última quarta-feira, vi naquelas tevezinhas que instalam no ônibus que a Cantareira chegou a 20% da capacidade. Sabe… se for verdade, é como se você pedisse um copo d’água pra alguém e só te trouxessem um dedo ou dois – de água, claro. “Tava com sede tamém, bebi no caminho, foi mal”. Busca mais, então, carai!

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12 de junho

A maioria das cartas públicas aos namorados e namoradas diz a mesma coisa. Estão todos namorando a mesma pessoa?!

Aos que falam que ‘não têm palavras para expressar o amor que sentem’, eu digo que, sim, as têm. Acho que o ‘problema’ ao se escrever uma coisa de amor (coisa, porque ninguém mais escreve cartas, e ‘declaração’ se faz ao governo) é ter aquela ansiedade de dizer o ‘eu te amo’, e, quando é dito, não há de se dizer mais nada.

Mesmo que opte por usar palavras repetidas, pode-se parafrasear Renato Russo ou dizer que ‘até tem mais palavras, mas, se as disser todas agora, o que dirá nas próximas décadas?’ Não acredito que o amor seja menor por faltar palavras (nem pelos erros ortográficos), ainda mais se você considerá-lo um sentimento puro; coisa de criança, sabe – o que explica os casais que conversam feito bebê. As crianças não conhecem muitas palavras.

Resumidamente: talvez você consiga um pouco mais –  coisa única, de primeira, que só faz sentido se lido pela pessoa a quem se direciona. Se não, aceito encomendas de coisas de amor. R$ 100,00 por lauda de sentimento verdadeiro.

Quase nove

Faz uns 8 anos – é, nossa, oito anos. Três caras que haviam repetido de ano, todos por motivos diferentes, mas estavam ali, imaginando como seria viver dois anos seguidos como se fossem um só – um dos caras já sabia como era. Sentou à frente, tinha cabelos a cortar e quase nenhuma barba. Os outros dois também não tinham, quase ninguém tinha barba naquela época, nem os repetentes. O cara se sentou à frente, quase na primeira carteira, acho que foi na segunda. O segundo cara se sentou ao fundo, no meio, e, incentivado por outros caras com quem fez alguma amizade, começou a provocar o cara lá da frente, de infantis olhos verdes, óculos e sorriso babaca. “Harry pooootter, pooootter”, a semelhança era lembrada e ecoava na sala. “Hey, cara, chega aí”, e, no mesmo dia, já voltaram conversando – a passos rápidos, já que o segundo cara tinha 15 minutos para chegar em casa, almoçar, se trocar e ir pro emprego, no centro – sobre vídeo-games. O terceiro cara se juntou aos dois primeiros, uma, ou duas, semanas depois. Repetente também, como adiantei. É, isso junta as pessoas.

A mãe do primeiro expulsou os outros dois algumas vezes, mas eles continuavam indo lá, na casa dele – não tinham muitos lugares pra ir. Eles arrumavam uma garrafa de refri vazia, às vezes, enchiam ela até quase a metade de água, o resto de pinga e suco em pó; e saiam por aí, contando os segundos que cada um mantinha a mistura virada, escorrendo o líquido pela garganta. Jogavam uns jogos de tabuleiros que causariam vergonha a qualquer um com o mínimo de bom senso, faziam alguns poucos planos…

O segundo cara tinha medo de não ter amigos pra vida inteira, então decidiu que os outros dois seriam esses caras.

E eles estavam lá, juntos, quando o segundo bebeu pra caralho e o terceiro teve o pescoço violentamente chupado por uma gordinha bastante simpática. O segundo correu com a calça do terceiro, que a tinha tirado para entrar na piscina, pela rua – duas ou três da manhã -, girou acima da cabeça e a atacou por cima do muro, na mesma piscina.

Noutro dia, o segundo bebeu pra caralho – é, de novo – e tarou a gerente da lanchonete que o terceiro trabalhou, enquanto o primeiro vomitava na pia cheia de louça… Linguiça e vinho! Combinação que sempre resultou em comida espalhada pelo chão…

Eles compartilharam empregos ruins… como quando o primeiro e o segundo iam pro centro de cabeça raspada – pra sorte deles, não trombaram nenhum punk nessa época.

O terceiro cantava – e os outros dois olhavam, desapontados. E os outros dois jogavam futebol no vídeo-game, enquanto o terceiro olhava, desolado.

Eles falavam dos poucos amores que tiveram e comiam pastel na feira. E quando eles acharam sobras de pastel doce embaladas em cima dum saco de lixo na rua, levaram para a escola e ofereceram para os outros e comeram também – tinha açúcar e canela. Acharam aquilo entre o intervalo de uma corrida – e o terceiro sempre era o mais rápido – e uma mijada no carpete da loja de tapeçaria (?).

Que os filhos de cada um deles conheçam os outros dois…