GuilHerme

Quando meu irmão nasceu, eu escolhi o nome. Na verdade, me deram duas opções. Uma delas era Heitor, que eu julgo até hoje um nome de velho. Mesmo que um dia a criança se torne velho, não achava justo, nem acho ainda, que um bebê mereça um nome de velho. Então, ficou Guilherme mesmo, a outra opção.

Só depois de muitos anos, em um dos meus empregos de telemarketing da adolescência, eu percebi que fiz a escolha errada. Não que Heitor ainda seja uma alternativa, longe disso, mas Guilherme devia ser escrito de outra forma, do Guilherme aqui de casa e de qualquer outro. Eu trabalhava com telemarketing, como disse antes, e em telemarketing é normal usar nome de guerra. Já tinha um Murilo quando eu entrei na empresa, então fiquei sendo Guilherme. E quando entrou um Guilherme de verdade na empresa, o Murilo original já tinha saído e eu continuei sendo Guilherme mesmo assim, e o Guilherme que entrou teve que escolher outro nome. Ele podia ter escolhido Murilo até, imagina…

Aliás, são dois erros. O primeiro na grafia do nome que, eu juro, explico já já. E o segundo erro, esse só meu, foi escolher ser chamado de Guilherme na empresa. Porque quando eu chegava em casa minha mãe chamava meu irmão e eu atendia.

Em todo tempo que fiquei trabalhando lá, 1 ano, por aí, se eu acertei 3 vezes a pronúncia do meu, suposto, próprio nome foi muito. Eita nome difícil de falar, hein?! Acho que todo mundo conhece um Guilherme, que é um nome bem comum, meu irmão já estudou em sala com outros 3 Guilhermes. Mas todo Guilherme, que a gente conhece ou não, a gente chama de Guilerme. Ou por apelido, que é até melhor. Essa porra de h é tipo o l em ‘world’, tem que se concentrar demais pra falar, senão não sai.

Nossa mãe gosta de inventar mesmo, tanto que colocou dois l no meu nome. Esse l adicional, ao menos, nem eu nem ninguém é obrigado a falar. E eu não ligo também se deixarem ele de lado na hora de escrever. Me sinto a pessoa mais nojenta do mundo quando tenho que falar meu nome pra alguém e, geralmente pra algum cadastro, me vejo obrigado a falar ‘é com dois l’.

Ê mãe! Abraço pro Guilerme!

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Por que os Jogos de Inverno foram tão interessantes quanto são os de Verão, talvez mais

Título longo para análise curta — ou quase. O objetivo aqui é registrar, como espectador, o quão interessante foi acompanhar as transmissões dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, realizados no condado de Pyeongchang, na Coreia do Sul, entre os dias 9 e 25 de fevereiro.

O principal nome que representa o sucesso desses jogos e que possivelmente será lembrado mesmo para quem, como eu, nunca viu neve na vida é o de Ester Ledecká, atleta checa que levou dois ouros — sendo um na sua especialidade, onde era a favorita, líder do ranking mundial (snowboard); e outra em modalidade na qual nunca tinha chegado perto de vencer uma etapa mundial e inclusive pegou o equipamento da miga pra poder participar (esqui alpino). Brasileiro gosta de torcer pros mais fracos, com menos chances, assim como gostamos também de torcer para aqueles com quem criamos empatia — e, apesar dos pesares, em alguns casos, criamos empatia fácil fácil.

Então, eu estava acompanhando ao vivaço, de madrugada, quando a austríaca Anna Veith era cumprimentada por outras atletas, antes do final da prova. “I am so happy for you”, disse uma delas. O comentarista do SporTV, que infelizmente não lembro o nome e nem consegui achar, explicou: Anna, até ali com o menor tempo entre as atletas que tinham descido a montanha nos esquis, dificilmente ia ser ultrapassada por qualquer uma das cerca de 10 atletas que iam descer ainda, porque essas últimas a descer tinham pior colocação no ranking mundial. Eram, aliás, poucas as chances mesmo de uma mudança na medalha de bronze. Daí já sabe… a gente fica meio bolado com isso, né, como assim ganhar antes de terminar? Tá certo que a austríaca não pediu pra ninguém cumprimentar ela por nada antes do fim. Aliás, se eu sou ela, depois de perder a medalha, como aconteceu, ia reclamar com as pessoas que acharam que ela já tinha ganhado e a cumprimentaram, tá na cara que foi culpa delas, zica do caraio…

Beleza… a Ledecká era a número 26. O comentarista fez uma brincadeira com o narrador. “Você acredita que ela teria uma chance de medalha?”, disse, para depois explicar que ela era favorita no snowboard e tal. E enquanto eles tavam lá, trocando ideia de boas, a mina foi e passou 1 CENTÉSIMO mais rápido que a até então primeira colocada. Puta que pariu. Isso, pra quem gosta de esporte a ponto de ver qualquer coisa, é que nem um gol do seu time de coração que vale a vitória no último lance do jogo. E a cara da Ledecká foi ótima. Daí eu já tava torcendo pra ela ganhar no snowboard também, até porque eu já conhecia ela, e só conhecia ela, infelizmente dormi antes da final da prova, porque o bagulho foi do outro lado do mundo e virava a madrugada sempre, mas ela ganhou e eu fiquei satisfeito que não tenha me decepcionado.

Esse episódio vale o ingresso, como a gente está acostumado a falar no futebol. Eu diria até que vale pela edição inteira de jogos olímpicos. Mas teve muito mais coisa que consegui acompanhar — e muita que não consegui também. Várias outras zebras, como o brasileiro gosta, no hóquei feminino e na patinação de velocidade feminina também, por exemplo. Vários esportes maneiros, bobsled, patinação artística, curling (famosa bocha, ou malha, no gelo), snowboard e esqui em categorias de manobras, tipo skate. E o que me chamou bastante a atenção também foi o quadro de medalhas. Tudo muito bem distribuído, apesar de, como acontece também nos Jogos de Verão, vários países ficarem sem um bronze que seja. Mesmo assim, diferentemente da olimpíada como estamos mais acostumados, com três ou quatro potências ganhando tudo — até 121 medalhas no total, 46 de ouro, como fez os EUA na Rio 2016 — o máximo que um país ganhou em Pyeongchang foi 14 medalhas de ouro (Noruega e Alemanha). Cabe dizer que os jogos de inverno distribuem menos de um terço do número de medalhas dos jogos de verão.

Além dos pontos já citados, o esporte como ferramenta diplomática que é, especialmente os Jogos Olímpicos, viu e mostrou para o mundo que as duas Coreias podem montar um time de hóquei feminino de boas (mesmo sendo um time ruim, não importa) — e ainda fazer um gol (de uma jogadora nascida nos EUA).

Por fim, queria compartilhar uma curiosidade que tive e fui procurar: sim, os jogos de inverno também têm sua versão paralímpica, que este ano acontecerá entre os dias 8 e 18 de março. E o Brasil, assim como aconteceu na edição que acabou dos jogos olímpicos de inverno, também contará com alguns poucos atletas na competição.

 

2 vidas

Pode ser como uma rejeição mas também pode ser como um abraço que dura a noite inteira. É o nó na garganta ou o sorriso bobo. A incapacidade ou a realização. Um não-entendimento mas também o reconhecimento. É a realidade ou o realismo fantástico. É um livro mal escrito, um filme ruim, ou um livro tão bom que nunca vai virar um filme razoável que seja porque dependia da forma para existir. Um pacote de amendoins como almoço, uma barrinha de cereais, ou isso mais uma conversa ao telefone ou uma visita de sobremesa. É um red bull ou duas doses de velho barreiro seguidas de dois copos de cerveja e cigarro solto. O dito ou o não-dito, o subentendido, a melhor seleção de mensagens subliminares. É o pleonasmo mas pode ser metáfora, metalinguagem. A foto pousada ou o contexto histórico, o discurso. Um post de Facebook ou uma conversa profunda. É o sexo ou o sexo com beijo. É como a cabeça dos nossos pais mas pode ser também as dos filhos dos filhos. O conformismo ou o mais romântico nível de socialismo possível ou impossível. A distopia barata ou a utopia rara. É como estar sem conseguir dormir por qualquer outro motivo ou pelo único motivo aceitável. É não saber se tem crédito no bilhete ou ter passe livre. É pagar caro pra ver um filme ruim ou ver qualquer filme pagando pouco. É o MASP em qualquer outro dia da semana ou às terças, os descontos em comida. A vontade ou a saciedade. É uma porta fechada ou um portão fechado às cinco da tarde enquanto as farmácias esperam. Agonia ou alívio. É um texto de cartão de aniversário ou um apagado de propósito para que não saia igual duas vezes. A indústria cultural mas pode ser a Fábrica. É maionese com milho e purê de batatas ou um prato de rúcula com manga e queijo e um ovinho com cebola frito na margarina porque óleo não basta à frigideira surrada. A frase pronta ou a ordem que as palavras nunca viu ninguém. O erro ou o erro proposital. É o parágrafo seco mesmo que inacabado ou o romance completo com margem à interpretação. É o vazio infinito ou o espelho. A falta de perspectiva ou a escolha. Um calhamaço que pouco ou nada diz ou uma frase que sintetiza o mundo. É nada ou tudo, inclusive nada. É um período de cinco anos, mas pode muito bem ser dez, vinte, trinta.

Intermitente

Esses dias pensando, veja você, cheguei à conclusão inevitável de que, diante de tanto desemprego, a melhor solução é roubar. Isso, roubar. Porque tem quem repudie veementemente isso, mas na primeira oportunidade passa a enganar. E enganando toma gosto, tanto gosto que passa a enganar a si mesmo, e logo não está, de consciência limpa, enganando ninguém, apesar de estar, e opções para enganar têm de monte, toda uma sorveteria de sabores de picolés em forma de pirâmides e empreendedorismo de palco digital e coaches. Roubar é muito mais honesto e confiável. Até porque com o desemprego como está as opções além de roubar são poucas. Aliás, o subinconsciente coletivo da nação exploradora e explorada deu pra levar ao extremo a máxima de melhor pouco que nada. O tal do trabalho intermitente por exemplo que está pagando por aí até o mínimo de 140 reais ao mês. 140 reais, vejam, é tão pouco que há 20 anos já não era muito. Desque inventaram o real, arrisco, não é tão difícil ver ele quanto hoje. A não ser roubando, claro. Daí minha constatação que vinha e ia e depois ficou de vez. Porque a última vez que tinha visto uma nota de 100 foi nas mãos da caixa do banco. Aliás, várias delas. E porque o banco ali com tantas e eu com nada?

Saí de casa com o que achei mais ameaçador possível, neste caso uma faca de carne que só passou a ter novamente algum corte, já que não anda treinando com carne, pois carne não há, depois de eu acabar com a pia numa tentativa bizarra de afiação que quase me custou também o dedo. Como o banco é muito pra mim, sou novato, afinal, optei pela lotérica, que recebe com a mesma crueldade o pouco salário que conseguimos, quando conseguimos, em papéis de cobrança verdes para luz e azul para água e nos deixam, por mais manjada que seja esta estrófe coloral, no vermelho.

A ocasião faz o ladrão, sempre ouvi. E não me faltaram oportunidades, que agora me parecem muito mais fáceis e práticas, nos quatro quarteirões que separam minha casa da lotérica. Uma senhora com sacolas pesadas de compras, uma moça jovem distraída, como são os jovens, com um celular na mão e duas coleiras com seus respectivos cachorros de pelo caramelado na outra, um senhor que carregando uma televisão para dentro de certa casa deixou as portas do carro abertas com chave, celular, toca cd e tudo que se tem direito de roubar dentro de um carro, inclusive o próprio carro. Mas tal como o jogador mediano do time, que precisa na disputa de penais partir com confiança, determinado a bater no canto que treinou a semana toda, fazer o tento e garantir o bicho e a renovação do contrato por mais uma temporada, parti eu decidido a não mudar o meu plano inicial, a lotérica, o celeiro de craques da fauna tupiniquim, peixe, onça, micos, araras, até tartarugas, tá valendo, são animais simpáticos e até tive um quando criança, mesmo que não tenha durado o suficiente para guardar lembranças boas, tampouco ruins.

Pedi para a moça do caixa, a contadora de notas altas, o programa da loteca para o final de semana. Observei o ambiente, para além dos caixas e à minha volta, além de conferir, claro, que o Corinthians ia enfrentar o Botafogo fora de casa, que apesar de ter um time inferior, esse último, costuma tirar pontos dos times de cima da tabela quando em seus domínios. Se eu colocasse derrota e empate já queimava minha dobra e eu só tinha uma chance. Era tudo ou nada.

A caneta não funcionava. Mal sinal. O barbante que prendia ela à mesa era de péssima qualidade. Bom sinal. Nos bancos eles usam correntes para prender as canetas. As mesmas correntes que a gente consegue tentando assaltar um banco. Se a segurança da lotérica era tão falha a ponto de não se preocupar em proteger as canetas, tão fundamentais para o funcionamento das apostas diárias e, por conseguinte, para a retroalimentação do pequeno sistema capitalista que ali respira triunfante, porque não seria desleixada com todo o resto?

Girei a maçaneta de casa, com a aposta que fiz, sem dobra no Botafogo x Corinthians, porque o time do Corinthians, segundo um senhor que estava na fila da lotérica e que me pareceu bastante confiável, teria cinco desfalques para a partida no sábado. Botafogo na cabeça, portanto, e acabei gastando a dobra com um ABC x CRB. Os caras da Loteca sempre botam uns jogos assim de times geralmente com nome de cidade de interior do Mato Grosso ou um confronto de siglas, como era o caso, segunda, terceira, divisão a quatro, para que a gente não consiga de jeito nenhum fazer os 13 pontos, quem dirá os 14. Ah sim, obviamente não tinha todas as informações que precisava para seguir com a segunda metade do meu plano da lotérica, que envolvia meter as minhas mãos nas notas de alto valor de troca. Mas consegui bastante coisa por uma visita. Me dei por satisfeito e ainda consegui uma dica que podia me ajudar com a loteria esportiva do bom senhor da fila da lotérica. Continuava confiante do canto em que ia bater o penal, foi só uma paradinha estratégica que, me parece, ainda é permitida na regra, desque não ocorra já em cima da marca da cal.

Quando o goleiro ciscasse para o lado, bateria no outro, de modo que ele nem sairia na foto. Esse foi o plano naquela sexta-feira véspera de Botafogo x Corinthians. Botei déizão no bilhete único, o que mal dá pra ir e voltar do centro, e apresentei uma nota de 20. Essa foi a senha, sempre é, para a caixa dos dedos habilidosos dizer, vai levar o bolão da quina hoje?, todo dia tem esse maldito bolão da quina. Vou levar tudo!

Era o que eu devia ter dito e feito. Mas não levo jeito para roubar, nem para apostas esportivas, pois acaba de acabar em 3 tentos a 0 para o Corinthians, com desfalques e tudo, mesmo fora de casa, definitivamente eu preciso parar de confiar no Botafogo. Vendi esse texto para o autor que agora o assina, seja lá quem ele for, pela quantidade de reais-hora equivalentes ao tempo que gastei escrevendo em conformidade com a nova e abençoada, né, e moderna regra trabalhista. O que me garante ao menos uma nova chance de ir à lotérica, ver se tenho mais sorte dessa vez.

O discurso e o microconto

Em linguística, a análise do discurso é feita com base no contexto histórico, político, social etc. em que o texto foi escrito. Assim, é possível se chegar ou aproximar da intenção com que o texto foi escrito/falado. Uma mesma frase que atravessa séculos, fronteiras e culturas diferentes pode facilmente ter diversos significados. O contexto é algo bastante presente nas nossas discussões diárias e na nossa tentativa de compreensão da língua, tão maravilhosa e complexa ao mesmo tempo. “A solução mais fácil era botar o Michel”, quando durante uma partida de futebol, podia se referir a uma mudança tática, por exemplo. Fim do parágrafo mais acadêmico.

Daí que outro dia vi a seguinte frase na timeline do Facebook: “Vou dormir, antes que eu sinta fome”. O contexto em que isso foi colocado eu não sei exatamente. Chuto que tenha sido algo sobre tentar emagrecer ou por preguiça de cozinhar. Tinha um ‘rs’ depois, algo assim, e na nossa sociedade atual sabemos que isso foi uma forma de facilitar a compreensão de ironias rs. O meu contexto, de outro lado, era (já faz umas duas semanas) de alguém que tinha estudado recentemente sobre microcontos. Logo, mesmo sem a aparente intenção, julguei que o autor tinha feito um excelente microconto (gênero no qual, como o nome diz, as palavras são poucas, e por isso mais margem para o não-dito e à interpretação). “Vou dormir, antes que eu sinta fome”.

Micro-crôni-conto de ficção científica para o 12 de junho*

Fiquei pensando outro dia em como seria voltar no tempo. Você me disse que estava com sono e que eu fiquei te cutucando e te atrapalhei, e foi por isso. Fiquei pensando em como seria ir direto na sua casa, a 30 minutos de trem (talvez mais antes, porque hoje em dia os trens são novos, né), e dizer que a gente já namora no futuro, ou melhor, no presente, que vamos casar, quando der, e se por exemplo a gente começar a juntar dinheiro agora (em 2008, digamos), vai ser mais fácil lá ou aqui, mesmo não tendo como saber quanto tempo mais teríamos pela frente (já que eu escolhi ir pro passado primeiro). Fiquei pensando como faria, aliás; se transferiria pro meu eu do passado também memórias com números da loteria ou de repente apostaria em esportes. Quem sabe na LDU como campeã da Libertadores… E como faria para não me sentir egoísta por mudar o nosso mundo e não o ao nosso redor, com todas as informações privilegiadas que teria. E quão perigoso seria isso, se a consciência pesasse demais. E se você não quisesse me namorar? Tem essa possibilidade. Eu ficaria esperando até 2011, trabalhando nos empregos que, já sabia, não ia gostar? E os empregos que gostei, em uma segunda chance, seria aprovado? Teria que cursar faculdade no mesmo ano, no mesmo lugar, para te encontrar? Se por acaso não deixasse o cabelo crescer, chamaria sua atenção mesmo assim? Poderia já escrever minhas reportagens mesmo antes de entrevistar as fontes, pois já sei o que vão falar? Essa é a merda, né, esse lance da vida não ter rascunho ou ensaio, mas tendo essa possibilidade, sem precedentes, saberia alguém o que fazer? Outro dia você me disse algo que eu já tinha ouvido, que sempre faz algum sentido: que não existe viagem no tempo, porque senão veríamos viajantes do futuro. Mas se eles apenas voltam para seus eus do passado, como sugeri aqui, sem se duplicar? Se não contam pra ninguém que vieram de outro tempo ou mesmo não têm consciência disso? E se contam, como alguém acreditaria? Ou mais: e se nesse microsegundo do universo em que vivemos, não há nada interessante a revisitar? Quero dizer, não para eles. Eu voltaria no tempo, para viver mais com você.

*publicado na data correta, na página pessoal do autor no Facebook

Ceticismo [prefiro chamar de literatura do que de iro***, mas, er, esse é o aviso, não explico mais que isso]

Eles pedem tão pouco. Vi na internet esses dias. Uma discussão sobre apropriação. Cultural. Por que a moça branca. Coitada. Não pode usar turbante. Afinal.

Outro dia. Também na internet. Sabe. A internet aproxima a gente. Estavam falando que eu devia chamar um homem. Nasceu com rola. Eu devia chamar esse homem de ela. No feminino. Sabe. Se por exemplo o nome do cabra fosse Pedro. E no dia seguinte passasse a ser Fátima. Deveria chamar o cabra de Fátima. Se eu conhecesse alguém assim. Não teria preconceito. Mas. Ia ser estranho. Né. Chamar de mulher alguém que joga bola. Jogou. Com você. Na rua. Descalço. De Fátima. Por que alguém ia querer se chamar Fátima. Daí a Fátima vai querer usar banheiro feminino. Eu sei bem que ele quer. O Pedro. Pessoal finge ser. Viado. Posso dizer isso ainda. Hein. Tudo que eu falo tá errado. Parece. A não ser no grupo. Lá é só zoeira.

Eu não entendo. Quem fala que eles querem tudo é que estão certos. Parece ser pouco. Mas. A gente dá uma mão. Querem o braço. A perna. A perna que essas feministas insistem em não depilar. Eu também me informei sobre isso. Li os comentários. E os comentários sempre concordam com o que eu penso. Se a maioria pensa de um jeito. Deve. Estar. Certo. Daí um dia nenhum jantar se põe na mesa. E eu. Como fico. E a gente tem que garantir a sobrevivência da. Raça. Elas querem direitos iguais. Um pessoal esperto ofereceu para carregar cimento. Eu nunca carreguei cimento. Mas tive que me alistar. Isso. Não querem. Óbvio.

Se precisar trabalhar fora pode. Se não precisar. Fica. Ir pra que… Eu nunca vou entender. E me esforço. Juro. Sempre tenho a confirmação que estou certo. Sempre. Até. Porque. Entre eles. Discordam. Se até entre eles. Algo não está. Certo. O conservadorismo é necessário. Falaram. Eu concordei. Mas tudo que eles falam parece sem sentido. Aí fico com as minhas. Convicções mesmo. As vezes até desisto de ouvir.

Não aceito as coisas. Assim. Fácil. Não. Eu sou cético. Um pessoal aí por exemplo fala que. Ditadura foi cruel. Eu vi que o Brasil cresceu. Eles não podem.  Esses que falam de crueldade. Estar mentindo. Hein. Todo mundo quer tirar vantagem. Todo mundo. Já mentiu. Para tirar. Vantagem.

Pessoal fala que apanha da polícia por ser afrodescendente. E bandido. Né. Se apanhou. Mereceu. Uma coisa que é díficil de entender também. É mulher safada. Que seja. Fora de casa. Casar pra que. Né. E a maioria não quer saber. De homem de. Bem.

Não dá pra entender. Pessoal já vota. Pessoal já pode trabalhar fora. Só não pode ser preso de menor. Fico puto. Só querem saber de direitos. E os deveres. Hein. Pode ser viado. A TV tá cheia. Pode ficar sem depilar. Mas não sou obrigado a achar bonito. Claro. Não sou obrigado a achar bonito nada. Cabelo ruim. O pessoal faz isso. Ter direitos. Mas e os deveres. Né. Querem mais. Sempre. Quando eu falo que todo mundo quer tirar vantagem. Processar. Ganhar cinco minutos de fama. Dinheiro. Mas não se pode falar mais nada. Querem mais o que. Vou falar tudo que eu quiser sim. Chama liberdade de expressão. Eles parecem pedir pouco. Mas querem tudo. E eu não vou dar. Até porque dar é coisa de viado. Falo mesmo. Outro dia me falaram que não é todo viado que dá o cú*. Aliás. Eu não entendo… [quinze mãozinha rezando)